
Johnny Marco (Stephen Dorff) é uma estrela de Hollywood em plena uma crise existencial: por entre muitas mulheres e tentações, já nada verdadeiramente lhe interessa. No entanto, quando a sua ex-mulher lhe deixa ao cuidado a sua filha de 11 anos, Cleo, ele vai aprender a saborear os momentos mais simples da vida.
‘Somewhere’ é o regresso constrangedor de Sofia Copolla (‘The Virgin Suicides’, ‘Lost in Translation’) à realização. Se por um lado o ritmo pausado e a falta de uma orientação narrativa pode ser justificada pela pretensão artística (ou deveria dizer, presunção), já a falta de originalidade e de terreno coberto é verdadeiramente incompreensível. Uma vedeta em Hollywood farta de dinheiro, fama e mulheres fáceis, e que por tal fuma muito, droga-se ainda mais e conduz de um lado para o outro com um ar muito compenetrado? Este cliché percorre séries de televisão e filmes todos os anos, sem ser necessário que um talento como Copolla vá perder tempo com ele.
Bem, a banalidade podia e é pior. O protagonista Johnny Marco é puxado para longe desta monotonia devassa pela sua filha. Em instantes, quem vê a série ‘Californication’ já encontrou um paralelismo. Já o facto de ambos os produtos entenderem que tempo de qualidade entre pai devasso e filha de 11 anos é jogar Guitar Hero já é uma coincidência quase impossível.
O problema é que ‘Somewhere’ é um trabalho genuinamente preguiçoso. Copolla oferece um par de cenas mais interessantes (como a da ida a Itália ou a criação de um molde fácil) mas nunca sai de terreno muito familiar (há enormes semelhanças com ‘Lost in Translation’) ou de terreno mais que batido (por basicamente qualquer um dos milhares de filmes que nos vendem a ideia que ser um actor famoso é uma vida muito chata). Para piorar, o filme é por vezes fotografado de forma simplista e desleixada, e conta com um Stephen Dorff muito vulgar. A banda sonora do filme (uma das marcas mais fortes da autora) é constituída por uma escolha terrível de ‘hits’ dos anos 00s (justificadas na narrativa, mas grosseiramente desnecessárias) e música originais muito sem sabor pelo seu namorado Thomas Mars (dos Phoenix).
Se por um lado ‘Somewhere’ é uma falha irrevelante na carreira interessante de Sofia Copolla, já o facto do festival de cinema de Veneza considerar que este trabalho é merecedor do Leão de Ouro deixa-nos a pensar no que Ricky Gervais diria sobre o júri do certame.
O Melhor: Algumas sequências interessantes como a visita a Itália ou quando Marco faz um molde da sua cabeça.
O Pior: A falta de originalidade da história.
A base: Preciosismo e falta de originalidade são uma mistura muito complicada de aceitar. Sofia Copolla assina aqui o seu pior trabalho. 4/10
José Pedro Lopes

