O que fazer quando descobrimos que a namorada do nosso melhor amigo o anda a trair? Contamos? Ou não contamos? “O Dilema” que este filme nos apresenta seria bastante perspicaz, se já não tivesse sido feito à exaustão. Ainda assim, pensar-se-ia que um realizador premiado já com um Oscar da Academia possa dar a volta aos acontecimentos e pelo menos dar uma certa dimensão de conflito e imprevisibilidade, certo? Mesmo que esse premiado seja Ron Howard. Certo?
Bem, infelizmente não. E o filme é exactamente o que esperamos desde o primeiro até ao último frame. As piadas que funcionam são praticamente inexistentes – a certa altura uma pessoa tem mesmo que esboçar um ou outro sorriso, mas mais culpa dos maneirismos habituais de Vince Vaughn que outra coisa. E quando o filme tenta seguir a certa altura o caminho do melodrama, falha igualmente, até porque nenhuma destas personagens é suficientemente credível para merecer quaisquer lágrimas. Junte-se isto a uma realização completamente anónima (poderíamos imaginar qualquer pessoa ali na cadeira…), o que provoca por si só um desperdício quase total de talento. Para não falar em amnésia a médio e longo prazo por parte do espectador em relação ao que acabou de ver.
Para os interessados, há um plano do traseiro de Channing Tatum (!), certamente mais memorável que o que se encontra à sua volta. Já Jennifer Connelly (que tinha conquistado também o prémio da Academia sob a realização de Howard em “Uma Mente Brilhante) é subaproveitada a todos os níveis, como sempre. A actriz bem se esforça nas cenas mais “emocionais”, e esforça-se até de uma maneira que torna o resultado mais esquisito. Disse “desperdício quase total de talento” no parágrafo anterior, porque Howard teve a sorte, como quem joga ao acaso na lotaria e lhe sai a terminação de três números, de chamar Winona Ryder. E Ryder teve a perspicácia de pegar no material que lhe coube e de proporcionar aqui, tal como já o tinha no papel ainda mais restrito em “Black Swan”, momentos minimamente memoráveis, mesmo que para isso se note que está num filme totalmente diferente do que os restantes. Sem ela, o filme seria ainda mais sofrível. E por isso, quando a actriz sai de cena de forma bem mais comedida que entrou, a sensação que temos é que tanto Ryder como o espectador saem claramente a perder deste “falso dilema”, na medida em que ambos mereciam um filme bem melhor…
O Melhor: Winona Ryder. E o corpo de Channing Tatum, para quem apreciar.
O Pior: A inércia do argumento e realização, tudo em modo piloto automático, pronto a consumir e a esquecer dias mais tarde.
A Base: “O filme é exactamente o que esperamos desde o primeiro até ao último frame. As piadas que funcionam são praticamente inexistentes (…). E quando o filme tenta seguir a certa altura o caminho do melodrama, falha igualmente, até porque nenhuma destas personagens é suficientemente credível para merecer quaisquer lágrimas. Junte-se isto a uma realização completamente anónima (…) o que provoca por si só um desperdício quase total de talento.” …4/10
André Gonçalves

