‘Winter’s Bone’ (Despojos de Inverno) por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)
O cinema independente baseado numa personagem e nos seus dramas pessoais e familiares percorre sempre a ténue linha entre o filme banal e condescendente, e o filme brilhante e revolucionário. 
No passado ano de 2010 fomos abençoados por duas reflexões sobre personagens que são mais do que brilhantes e revolucionárias, são a alma do cinema em si mesmas. Para além deste fenomenal ‘Winter’s Bone’ falo do arrasador drama inglês ‘Fish Tank’ (considerado pelo c7nema o melhor filme de 2010).
Estamos na América profunda, numa região pobre e  muito fria, onde vive Ree, uma adolescente que tem de tomar conta da sua mãe doente e dos seus dois irmãos mais novos. Cheia de dificuldades de dinheiro mas não com menos orgulho por isso, Ree trabalha no negocio da lenha enquanto sonha com uma careira militar. No entanto, quando a policia visita a sua casa a sua ténue estabilidade vê-se ameaçada: se Ree não encontrar o seu pai, um traficante de droga que desapareceu há meses para evitar ir a tribunal, a sua casa é confiscada. Ree vai ter então de visitar todos os contactos do seu pai (cada um mais perigoso e insidioso que outro) para descobrir o paradeiro deste.
O grande segredo deste filme de Debra Granik (que já havia deixado boa impressão em ‘Down to the Bone’) é a sua contenção explosiva. ‘Winter’s Bone’ nunca explora sentimentos baratos ou dramatismos fáceis, e a realização nunca é impositiva no fora emocional. O filme é mais real que a própria realidade na sua abordagem a estava pequena viagem emocional de Ree, e nós ficamos submersos em preocupações e sentimentos como se a vivência fosse nossa.
Até porque não poderíamos ter melhor anfitriã que a fantástica actriz Jennifer Lawrence (que veremos em breve como Mistique em ‘X-Men First Class’), que tem uma performance tão incrível como contida. A sua prestação nunca cai em facilitismos dramáticos mas agarra-nos do início ao fim, com uma personagem que mascara perfeitamente os seus sentimentos frágeis com uma postura forte, e que fala tão sinceramente com os demais como fala com o espectador.
Este filme, que venceu o Grande Prémio do Júri do Festival de Sundance (e que por cá aparecer no FEST Espinho e no Estoril Film Festival), é uma pérola rara no cinema indie americano.
O Melhor: Jennifer Lawrence é uma actriz irrepreensível.
O Pior: Nada.
 
A Base: ‘Winter’s Bone’ é uma viagem sincera e emocional – mas nunca fácil – à América profunda pelos olhos de uma adolescente mais forte do que parece. 10/10

José Pedro Lopes

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