‘Black Swan’, o novo filme de Darren Aronofsky, consegue em seu pleno direito, mais ou menos, a mesma proeza que ‘Social Network’ de David Fincher: o talento cinematográfico é tão forte, e tão capaz, que faz com que fiquemos aterrados como o que poderia ser, à primeira vista, uma história bastante convencional.
Neste filme seguimos Nina Sayer (Natalie Portman na sua melhor performance), uma bailarina meio esquecida de uma grande companhia de dança que vive com a sua mãe obsessiva, uma falhada ex-bailarina. Quando Beth Macinture (Winona Ryder) é forçada a reformar-se pelo encenador Thomas Leroy (Vincent Cassel), devido à sua “avançada” idade de 40 anos, Nina fica com o exigente papel principal: a Rainha dos Cisnes em ‘Black Swan’. Só que se interpretar o Cisne Branco, sensível e vulnerável, é fácil para Nina, já para tornar-se no Cisne Negro, ela terá que descobrir o seu lado negro.
Aronofsky sempre foi um realizador que jogou muito com as linhas de realidade e da imaginação (‘The Fountain’) e os limites da loucura (‘Requiem for a Dream’), mas curiosamente ‘Black Swan’ aproxima-se mais do seu recente ‘The Wrestler’ na sua abordagem visual mais bruta e na sua linha de aproximação emocional das personagens. Nós e a câmara seguimos sempre de perto Nina (especialmente quando ela se desloca na rua, onde vamos colados à sua nuca enquanto o mundo passa por nós), e o foro emocional da pressão dos grandes palcos que víamos em ‘The Wrestler’ é aqui revisitada com contornos góticos frequentemente assustadores.
Natalie Portman tem aqui uma prestação inacreditável, quer pela dedicação física, quer pela dimensão emocional que dá a Nina – tão frágil como inquietante. Aronofsky é um realizador que apesar de trabalhar muito o lado visual de um filme sempre sabe respeitar as personagens e o lado mais dramático da linguagem cinematográfica.
‘Black Swan’ prende-nos ao ecrã até à sua recta final, onde a natureza algo convencional da sua história sai desmascarada. Uma pena, porque o exímio trabalho da actriz e do realizador mereciam um desfecho mais arrojado.
O melhor: A duas faces de Nina e a forma como ela nos assusta e comove.
O pior: O acto final deste Cisne.
A base: ‘Black Swan’ é uma obra cinematográfica superior graças aos grandes talentos de Portman e Aronofsky – mesmo que a sua história nunca seja tão ambicioso como o próprio filme. 8/10
José Pedro Lopes

