Ironia interessante, mas completamente esperada: “Biutiful”, o novo filme do mexicano Alejandro González Iñarritu está muito longe de ser um filme bonito. Até será forte candidato a filme mais feio do ano, filmado do modo mais belo, se isto faz algum sentido. Tentarei explicar melhor esta ideia ao longo desta crítica. E se faz algo, é riscar um pouco a ideia de que Barcelona é uma cidade de sonho. Ou melhor, pondo isto de uma forma mais directa: depois de uma pessoa ver “Biutiful”, a probabilidade de querer ir visitar Barcelona nos próximos meses diminui drasticamente.
Esta é muito basicamente a história de um homem com poucos meses de vida devido a um cancro (Uxbal – um Javier Bardem a dar conta do serviço), que comanda um negócio ilegal de produtos manufactorados à custa de mão-de-obra chinesa explorada, claro, com trabalho infantil à mistura. Querem mais? Há muito mais. Temos uma mãe “junkie” que maltrata os filhos e engana o marido com o irmão, que já nem é tecnicamente marido pelo que percebemos. Famílias mal-nutridas. Temos um casal improvável “gay”, que obviamente já sabemos que não vai ter o melhor dos desenlaces, logo desde a primeira cena juntos. Temos famílias separadas, por deportação. Temos mortes, muitas. Tudo muito bem filmado, sim senhor. Desgraças é o que não falta neste novo mundo azulado de Iñarritu. E se há algo que não podemos acusar o realizador de fazer é desviar-se dos temas. De facto, os temas são tão martelados na cara do espectador, que às tantas temos que meter as mãos na testa ou simplesmente desviar a cara para baixo. Ah, e já disse que a personagem de Bardem também fala com os mortos nos tempos livres?
O que é que aconteceu ao Iñarritu dos três primeiros filmes? Continua aqui, é um facto. Para o melhor e para o pior, este continua a ser um filme com uma marca autoral muito sua. É certo que já não encontramos aqui histórias que cruzam fronteiras de espaço e tempo, em narrativas “puzzle” (o realizador terá tido um conflito de interesses com o argumentista Guillermo Arriaga, e este é então o primeiro filme sem a sua colaboração). Mas temos uma fotografia (do habitual Rodrigo Prieto) e planos que se adaptam perfeitamente à disposição do filme, a banda sonora característica de Gustavo Santaolalla, e as interpretações à flor da pele, ali a roçar os limites do admissível em termos de “overacting” – desta vez, mais do que nunca (ver a sósia espanhola de Ana Bustorff). Para não falar de toda a espiritualidade inerente, aqui também a ultrapassar alguns limites. Será que a saída de Arriaga acabou por demonstrar uma oportunidade de descontrole narrativo por parte de Iñarritu?
Ao longo de duas horas e meia, somos enfrentados com um miserabilismo sensacionalista que fará um “Babel” parecer uma história para crianças. A questão essencial é: o que é que nós ganhamos no final com um filme destes? Filmes deprimentes e existencialistas não têm que conter todo o tipo de desgraças possíveis (a certa altura ainda pensei que fosse surgir alguém seropositivo, mas também SIDA é tão anos 90, terá pensado o realizador… ). A Iñarritu faltou-lhe restrição para lidar com estas temáticas da maneira que merecem ser tratadas. E faltou-lhe o toque de mestre para fazer um “zoom out” ao seu filme, e fazer uma ligação que deixasse de facto algum motivo para a existência do próprio, sem ser mostrar simplesmente e de uma forma gratuita a miséria com uma ligação não convincente à religião e à espiritualidade. Porque para isso, cada um pega na sua câmara e vai ali à Cova da Moura. Também é verdade que os planos não vão sair tão bem e tão bonitos como estes, mas…
Quanto a este exagero bem filmado causador de amores e ódios justificados, não deixando de ter um ou outro aspecto redentor, não colou de todo com este espectador.
O Melhor: Bardem pelo menos safa-se bem dos trabalhos penosos que Iñarritu lhe propõe
O Pior: Iñarritu em descontrolo narrativo. Dá pena.
A Base: “Este exagero bem filmado causador de amores e ódios justificados, não deixando de ter um ou outro aspecto redentor, não colou de todo com este espectador.” 4/10

