‘Another Year’ (Um Ano Mais) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)
“Um Dia De Cada Vez” (“Happy Go Lucky”), o magnífico filme anterior de Mike Leigh, trazia-nos um positivismo arrasador incorporado na personagem de Poppy. É por isso que é com algum choque que encontramos logo nos primeiros minutos de “Um Ano Mais”, o que poderíamos descrever como sendo uma anti-Poppy idosa: deprimida, desmotivada, pessimista, e com medo da mudança e de tentar quebrar a rotina. A partir daqui, percebemos que Leigh decidiu explorar um outro caminho sobre exactamente o mesmo tópico, e acaba por fazê-lo de modo igualmente acutilante.

À questão “O que é que nos faz felizes?” segue-se, “Porque é que nos deixamos afundar constantemente à medida que envelhecemos?”. “Um Ano Mais” decide cronicar o ano de um casal idoso aparentemente feliz, dividido em quatro secções, cada uma representando uma estação do ano: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

Mas o filme acaba por ser tanto sobre o casal Tom e Gerry, como de todos os que o rodeiam – sobretudo Mary, uma colega de trabalho de Gerry que nos lembrará de muito boa gente por aí. Interpretada magistralmente por uma Lesley Manville, que nos dá um dos retratos mais humanos e certeiros de uma cinquentona (?) jamais vistos (tal como aconteceu com Sally Hawkins e “Um Dia de Cada Vez”, volta-se a fazer a pergunta: como é que é possível esta actriz não ter sido nomeada sequer ao Óscar? ), Mary é o espelho da insegurança e da profunda frustração que todos nós receamos encarar à medida que caminhamos para uma outra idade, por termos visto toda a nossa vida seguir todos os caminhos que não esperávamos, e que acabámos por não aceitar. Isto tudo compensado com uns copos de vinho, um cigarro  de vez em quando e uma ou outra tentativa de humor. É uma figura que vai até aos poucos roubando o foco ao próprio casal – intencionalmente, diria eu, uma vez que não consigo encontrar uma personagem recente mais sedenta de amor e atenção e de ter alguma iluminação para ela que esta Mary.

Quanto ao casal, bem interpretado por Ruth Sheen e Jim Broadbent, são das personagens mais normalizadas e felizes de todo o filme – o que acaba por fazer todo o sentido em contexto.  Corria-se apenas o risco desta “normalidade” soar a falso, mas graças a mais um argumento improvisado de Leigh (aqui sim, a nomeação ao Óscar não escapou, felizmente), temos aqui o balanço perfeito entre realismo e idealismo. Pessoalmente, acabei por invejá-los como a personagem de Mary, o que me fez questionar se não estarei a caminhar pessoalmente num trilho menos saudável. Mas por outro lado, provavelmente não estarei na minoria desta vez, infelizmente.

Este é de facto daqueles raros filmes capazes de, com uma mão de mestre, nos mostrar um espelho   que reflecte a nossa condição universal enquanto seres humanos (crescemos, tomamos decisões, envelhecemos, e… ), e nos pôr a questionar sobre os nossos caminhos pessoais, e o que é que estamos a fazer das nossas vidas. É a continuação lógica de “Um Dia De Cada Vez”. E é, juntamente com “Nunca Me Deixes” (com estreia agendada para o próximo mês), o filme mais humano visto nos últimos doze meses e um outro favorito pessoal meu. Imperdível.

O Melhor: O olhar inteligente e profundamente humano de Mike Leigh, acentuado numa das performances mais assombrosas dos últimos tempos.

O Pior: Terem-se esquecido de Lesley Manville nesta temporada de prémios é para mim, a par do esquecimento do trio de “Never Let Me Go”, o roubo do ano. 

 

A Base: “É a continuação lógica de “Um Dia De Cada Vez” (“Happy Go Lucky”). E é, juntamente com “Nunca Me Deixes”, (Never Let me Go) o filme mais humano visto nos últimos meses e um outro favorito pessoal meu. Imperdível.”9/10

André Gonçalves

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