Há que dizê-lo, é uma pena.
O filme, realizado pelo mexicano Alejandro Iñárritu, tem como cenário a cidade de Barcelona e todo o seu esplendor visual, onde Uxbal (protagonizado por Javier Bardem) gere um negócio de contrafacção aproveitando-se de imigrantes ilegais africanos e chineses. A sua vida restringe-se àquilo que muitas pessoas fazem hoje: tentar sobreviver. Com dois filhos a seu cargo, uma ex-mulher louca e um irmão desnaturado, Uxbal ainda tem de lidar com uma doença grave que indubitavelmente o levará à morte. Esqueçam as imagens belas de uma cidade cosmopolita. Esqueçam a ideia de que os espanhóis vivem melhor que os portugueses. Em troca, fiquem com uma cidade cinzenta escondida nas luzes e no desespero de pessoas que querem uma vida melhor. A personagem de Bardem, é acima de tudo, uma pessoa que parece ter mais problemas que Deus quando Eva comeu a famosa maçã. Seguindo os passos de Iñarritu, enquanto realizador que prefere focar o lado fatalista e contemplativo do Ser Humano, Javier Bardem assenta que nem uma luva na sua personagem. A sua interpretação negra, triste mas afectuosa e dedicada de um homem que quer o melhor para todos bem merece a nomeação para Melhor Actor nos Óscares deste ano, demonstrando que o potencial de Bardem está ligado a personagens com profundidade dramática e sentimental. É neste género de filmes que Bardem mostra porque é que deve ser considerado como o melhor actor espanhol da sua geração e talvez um dos actores mais dedicados à sua arte. Nunca esquecendo a sua origem, é bom vê-lo a trabalhar em filmes ligados à sua cultura.
Já Iñarritu, com a sua talentosa qualidade de contador de histórias, afirma-se aqui como um realizador que tem uma visão muito humana dos seus filmes, mesmo que seja uma minoria a vê-los, algo que tem vindo a trabalhar desde “21 Gramas” e que se tornou notório com “Babel”. Muito da interpretação dos actores vem dessa visão de homens e mulheres sozinhos num mundo cada vez mais afastado da realidade, como foi o caso de Brad Pitt ou Michael Douglas e agora Javier Bardem. A sua nomeação para melhor realizador é merecida. Se irá ganhar? Isso duvido. Se o seu trabalho fala por si e nos toca a todos? Não tenho dúvidas.
O Melhor: A capacidade do realizador de ligar planos subjectivos à própria história do filme, aproveitando a estética da cidade de Barcelona; a banda sonora
O Pior: Faltou explorar mais a relação de Uxbal com os imigrantes chineses, especialmente com Li
A Base: porque é que “Biutiful” não se encontra no lote de nomeações para Melhor Filme? A resposta mais provável é que a Academia não arriscaria que um filme inteiramente falado em Espanhol ganhasse a tão cobiçada estatueta… 8/10

