É o oposto do que vemos nos ‘reboots’. ‘A Nightmare on Elm Street 2010’ despia Freddy Krueger de toda a sua idiossincrasia “oitententista” para o tornar numa personagem contemporânea e genérica. ‘The Karate Kid 2010’ desrespeitava o cenário social e de herói improvável para se tornar num filme para o público MTV / Youtube de consumo fácil. Mas como na prequela ‘Star Trek’ que JJ Abrams dirigiu há uns anos, ‘Legacy’ faz um esforço máximo para actualizar sem desrespeitar o espírito aventureiro ‘nerd’ do original.
Isso faz com que seja um filme bastante estranho. Se ignorarmos os espectaculares efeitos pessoais, diríamos que foi feito em 1982, poucos meses depois do original. A sua história e sentido de aventura vem dessa era (a recta final faz, a espaços, lembrar ‘Star Wars’). A sua estética e o seu mundo virtual é muito ‘beta’ e muito retro: o ‘look’ do filme está carregado dos azuis e vermelhos que dominavam ‘Tron’ e os seus cenários infinitos são baseados em design fortes e não em detalhes.
A história passa-se mais de vinte anos depois do original. Sam é um jovem adulto que vive assombrado pela desaparecimento do seu pai, Kevin Flynn (Jeff Bridges), quando era pequeno. Kevin anda a desenvolver um mundo virtual para o qual se conseguia transferir. Uma noite, Kevin recebe uma mensagem que o faz voltar ao velho e abandonado escritório do seu pai, onde ele é ‘scanarizado’ directamente para dentro da realidade virtual. Lá ele descobre que Clu (um programa criado à imagem do seu pai) é um governador tirano, que está por detrás da entrada de Sam no mundo virtual, pois o quer usá-lo para atrair Kevin, que tem estado escondido na imensidão digital todo este tempo.
A história do filme é bem mais simples do que parece. As personagens discutem conceitos e mundos elaborados com termos típicos da ficção científica cinematográfica, mas tal como ‘Tron’, ‘Legacy’ é um filme de aventuras bastante linear. O mundo criado originalmente por Steven Lisberger é, no entanto, muito fértil em cenários para estas aventuras. As corridas de ‘light cycles’ (motas virtuais do primeiro filme que se tornaram numa referencia do sci-fi dos 80s) ou as lutas de discos criam grandes momentos de emoção e recheio visual. Aliás, o lado técnico e visual do filme é assombroso mas comedido, sempre com bom gosto. Os cenários impossíveis têm uma vida própria mas nunca caem em exageros, e as personagens que habitam o mundo virtual são estéticas e muito ‘cool’ mas nunca se reduzem as distracções.
Em termos de elenco, o protagonista Garett Hedlund (‘Eragon’) é uma escolha insossa e o jovem actor nunca parece querer tomar conta do filme. Jeff Bridges também não está nas suas melhores ‘performances’, desequilibrando frequentemente da dose de ‘relaxe’ que traz às suas personagens e sendo por vezes desleixado. No entanto, o seu equivalente digital (Clu é interpretado por um Jeff Bridges de 20 anos feito a computador) tem alguns diálogos interessantes e consegue ser bastante emotivo na recta final do filme. Mas o verdadeiro destaque do elenco vai para Olivia Wilde que surpreende com o tom infantil e aventureiro que dá a Quorra, uma jovem guerreira que se alia aos heróis, uma personagem bem nas linhas das melhores aventuras da Disney. E notar também a personagem de Michael Sheen (‘The Damned United’), que pinta o filme com excelentes apontamentos cómicos.
Como dizia no inicio, ‘Tron Legacy’ é uma verdadeira peça de paixão feita para fãs. E isso nota-se muito na realização e no cuidado design de produção: o filme mais do que tecnicamente bem feito, é feito com muito gosto. Outro ponto onde se nota isto é na banda sonora dos franceses Daft Punk, que faz lembrar a sonoridade sci-fi dos 80 (como os temas de Vangelis para ‘Blade Runner’ ou o ‘Tron’ original) com uma atitude e um ritmo muito moderno.
Apesar do seu aparato, ‘Tron Legacy’ é uma sequela “esquecida” de um filme de culto. É como uma pequena viagem no tempo que emocionará as mentes sonhadoras que adoraram os filmes de aventuras sci-fi dessa época. Agora até que ponto conquistará novos públicos, tenho algumas dúvidas.
O melhor: O design de produção é assombroso, a banda sonora dos Daft Punk arrasa e Oliva Wilde surpreende.
O pior: Jeff Bridges devia ter levado mais a sério a sua personagem não digital.
A base: ‘Tron Legacy’ é um filme dos anos 80 feito com a técnica do cinema de amanhã, e é um filme mais para fãs do que para grandes massas. 8/10
José Pedro Lopes

