‘Winter’s Bone’ por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

No interior norte-americano, nas Montanhas Ozark, Ree, com apenas 17 anos, procura o seu pai fugido para impedir que a sua casa, dada como garantia para a fiança, lhe seja retirada, deixando-a a ela, a uma mãe doente e aos dois irmãos pequenos na rua. Baseado no romance homónimo de Daniel Woodrell, o filme permite-nos ver um estrato social que não costuma ser representado no cinema comercial que nos chega: o das famílias próximas (“somos todos primos” alguém comenta) que vivem do crime, da produção de meta-anfetaminas, com problemas de consumo do que produzem, com estruturas hierárquicas obscuras e violentas. Ree vai visitando várias pessoas, parentes, relações e associados do pai, passando por várias situações, a maioria recheada de ameaça latente, noutras encontrando aliados, enquanto vai tomando conta e ensinando aos seus irmãos técnicas de sobrevivência.

Com uma fotografia excelente, “Winter’s Bone” tem um estilo muito bem definido, com a música de artistas locais e uma iconografia americana muito específica, em todas as cenas de interior, sobrecarregadas de fotografias e bibelôs, e as roupas e acessórios usados. Numa das cenas, Ree entra na celebração de uma festa e a câmara demora-se na cantora e nos músicos, num momento de extrema beleza. Em vez de afastar o público, estes elementos contribuem para a coesão do ambiente e para a imersão na vivência destas pessoas.

Interesse social e beleza aparte, este é um filme difícil, com cenas muito tensas e algumas muito desagradáveis, não pelo que se mostra, mas pelo que se sugere. Apesar disso, este é um exemplo do bom cinema independente americano (foi criado e premiado em Sundance), um bem-vindo desvio aos personagens peculiares e histórias a tocar o absurdo que têm povoado este estilo. No final dos anos irá aparecer de certeza nos tops de muitos críticos e é possível que daqui a uns meses seja pelo menos nomeado para alguns prémios.

O Melhor: Jennifer Lawrence (Ree), que dá uma lição de contenção e expressividade a muitas actrizes estabelecidas.

O Pior: A definição inicial das personagens é incompleta e não compreendemos na totalidade a situação de Bree.

A Base: um exemplo do bom cinema independente americano, um bem-vindo desvio aos personagens peculiares e histórias a tocar o absurdo que têm povoado este estilo…8/10

João Miranda

Últimas