‘The Last Exorcism’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

 

O público adora o cinema de terror “Found Footage” – filmes de terror onde estamos a ver uma gravação misteriosa onde acontecem coisas terríveis. Desde “The Blair With Project” que o subgénero tem vindo a acumular êxitos de bilheteira: “Cloverfield”, “(REC)”, “Paranormal Activity” são os melhores exemplos. E geralmente são sucessos junto da crítica também. Para mim isto tem uma explicação: o “Found Footage” é um género de terror intrinsecamente ligado ao cinema e por tal, funciona com muita facilidade junto do espectador. Nestas cassetes assombradas, o que mais conta é como o realizador levanta ao não o véu sobre os factos apresentados, o seu ‘timming’ e a forma como condiciona a nossa verdade. E assim, é fácil aterrorizar as massas.

É um pouco, na sua forma, a motivo pela força narrativa de “Inception” de Christopher Nolan face a filmes que vem da literatura e das bandas desenhadas: neste género tipicamente cinematográficos, a força é dos actores e do realizador.

No filme de Daniel Stamm, Cotton Marcus (Patrick Fabian) é um reverendo que já fez mais de 47 exorcismos e que se desloca ao Louisiana rural para tentar salvar a alma de Nell (Ashley Bell), a filha de Louis Sweetzer (Louis Herthum), um fanático religioso. Uma equipa de documentaristas acompanha a preparação e o processo do exorcismo – filmando a cassete que vemos. Mas se Marcus e os seus acompanhantes estão habituados a ganhar a vida com falsos exorcismos, feitos à custa das crenças das mentes do interior, vão em Nell ter uma horrenda surpresa.

‘The Last Exorcism’ é um produto surpreendente dentro do espectro do terror Found Footage: está muito bem escrito e actuado. Aliás, o seu formato documental funciona muito bem graças a isto: as personagens são credíveis e o filme é interessante antes do terror começar. De todo parece estar a fazer tempo até aos sustos: bem pelo contrário, o filme funciona melhor fora da zona de terror do que dentro dela.

Muito do mérito disto vai para a realização documentalmente correcta de Stamm, e para os dois actores protagonistas. Patrick Fabian é divertido e multifacetado como o reverendo. E a desconhecida Ashley Bell traz a casa abaixo como a possuída Nell: ela é querido e inquietante, frágil e forte, consegue nos comover e horrorizar. A jovem actriz dá aqui sinais do que pode vir a ser um grande valor do cinema dos anos 10.

No entanto, Stamm comete muitos dos erros de George A. Romero na sua incursão “found footage” chamada ‘Survival of the Dead’: não respeita as regras de coerência. Quando o terror entra, “Last Exorcism” parece frequentemente editado (coisa que não encaixa no que seria uma cassete em bruto) e a sua câmara frequentemente filme o que dá jeito ao terror, e não o que seria credível um câmeraman filmar num cenário de sobrevivência.

O filme tem alguns sustos, muito eficazes porque Ashley Bell é terrorífica. Mas fica muito aquém do que podia, porque este desrespeito pela coerência visual afasta-nos demasiadas vezes da realidade. A cena-chave do celeiro não é assustadora como devia ter sido porque precisamente o filme parece esquecer-se ser um documentário falso e passa a ser apenas um filme de terror vulgar.

O clímax final do filme é o que mais paga por isto. A ideia é boa – mas o filme acaba por não nos satisfazer com um desfecho impactante. Bem pelo contrário, no fim, temos uma corrida com câmara igual à de “The Blair Witch Project” mas onde temos uma personagem secundária a ser perseguida por outra. Porque Stamm achou que o desfecho não devia ser entre o reverendo e a exorcizada não percebo – mas claramente errou nessa escolha.

“The Last Exorcism” não será um clássico do subgénero – no entanto, é surpreendemente bem escrito e apresenta uma dupla de actores fantástica que poderiam protagonizar um “remake” de “The Exorcist” ao mais alto nível. Talvez tivesse o filme sido melhor se não fosse feito como falso documentário, pois não é feito com totalmente convicção.

 

O melhor: Ashley Bell é arrasadora como Bell.

O pior: Quando o terror entra, Stamm dispersa-se na realização.

 

A base: Bem escrito e muito bem actuado, “The Last Exorcism” fica aquém do seu potencial na hora de assustar, por não levar a sério a premissa “Found Footage”. 7/10

 

José Pedro Lopes 

 

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