‘Resident Evil: Afterlife‘ promove-se como o primeiro filme desde ‘Avatar’ a apresentar um 3d a sério e conta com o regresso do realizador do primeiro filme, Paul WS Anderson. Estes dois factos tem implicações bastante profundas: se o 3d de ‘Afterlife’ é efectivamente muito bem conseguido e com uma qualidade ao nível da bomba de James Cameron, também é verdade que é uma arma perigosa nas mãos do realizador inglês casado com Milla Jovovich. É que Anderson é um homem dado a exageros, e com uma grande tendência a cair na plastificação dos seus filmes. Ele realizou de uma forma histérica (mas bem sucedida) a adaptação do videojogo ‘Mortal Kombat‘ nos anos 90, mas espalhou-se ao comprido quando foi igualmente exagerado na hora de realizar ‘Alien versus the Predator‘. Em ‘Afterlife’, ele volta a repetir o erro de quase todos os seus filmes: as personagens são irrelevantes, os exageros visuais valem tudo.
No entanto, não sou um duro crítico nem da saga ‘Resident Evil’ nem deste novo ‘Afterlife’. Para uma série inspirada em videojogos, os filmes tem uma vida e uma estética muito própria, e cumprem a sua função de entretenimento geralmente bem. ‘Resident Evil: Extintion‘ (o terceiro filme) de Russel Mulcahy (realizador de culto de ‘Highlander’) é até um filme muito bem conseguido no espírito perdido o “road movie pós-apocaliptico” – conta com uma fotografia espectacular e um design de produção soberbo, grande momentos de acção e uma Jovovich em bem forma. O segundo filme, ‘Apocalypse‘ é um filme mais rotineiro no paradigma zombie (envolve uma cidade e um cerco) mas é eficaz e climático. O primeiro filme era na realidade o menos bem conseguido, provavelmente pelo mesmo motivo que este ‘Afterlife’ não é tão bom como as outras sequelas: Paul WS Anderson.
O filme reencontra Alice e todos os seus clones, agora numa missão em Tóquio para derrubar a Umbrella Corporation. Esta sequência de abertura é um pequeno “showreel” de 3d – Anderson usa inúmeros slow motions e ‘bullet times’ (técnica do filme ‘Matrix’) para mostrar planos cheios e relevos da terceira dimensão. No entanto, tanto exagera que a cena parece nunca mais acabar e eventualmente se torna chata, até porque o vilão de serviço e Jovovich oferecem duas performances muito mal conseguidas, roçando o ridículo. Após esta abertura seguimos a personagem de Alice na busca de sobreviventes, primeiro no Alasca e depois em Los Angeles. O filme é muito pouco ritmado no seu primeiro acto: Jovovich actua sozinha e fala para uma câmara (algo que não sai beneficiado por a ex-modelo não ser assim muito boa actriz) e a história coloca-se num “mini-plot” estranho. Se nos filmes anteriores Alice enfrenta a empresa Umbrella Corporation e os seus planos malévolos, aqui ela passa a maior parte do tempo à procura de um mero plano de sobrevivência num prédio cercado. A personagem de Ali Larter (‘Heroes’) é recuperada neste quarto filme, mas a história é muito superficial para tirar proveito da actriz. O mesmo passa com Wentworth Miller (‘Prison Break’), que enche o ecrã de carisma mas nunca chega a ter uma única sequência interessante para actuar.
Felizmente para nós espectadores, ‘Afterlife’ ganha razão de ser no seu segundo acto, carregado de acção. Sem exagerar, o filme conta com uns 20 minutos centrais com sequências de acção impactantes e visualmente assombrosas. O 3d é magnífico e real – nada a ver com desvarios como ‘Clash of the Titans’. A sequência onde Alice se atira de um prédio cheio de zombies ou o confronto nos balneários com um zombie empapuçado gigante são brutais em termos de 3d. Marcam dos melhores momentos da saga ‘Resident Evil’ e só por si valem a ida ao cinema., fosse o filme todo como esta corrida ‘non-stop’ e o espectador sairia convencido que ir ao cinema era igual a ir ao ginásio, e que o 3d era a oitava arte.
O filme a partir daqui abranda um pouco em impacto devido aos exageros de Paul WS Anderson. O realizador exagera em truques visuais e em slow motions, e o filme perde ritmo e seriedade (até porque o filme tem uma postura pouco cómica para todo o espalhafato que mostra). A luta final fica muito aquém do que poderia ser por este abuso por parte do realizador.
No entanto, o ‘Afterlife’ mantém-se no ritmo do que é um filme ‘Resident Evil’: Milla Jovovich é uma durona, que dá pancada a cães-zombie ao som de música rock e electrónica, num filme de acção que não perde muito tempo para pensar. E neste aspecto, a série ‘Resident Evil’ continua a ser na realidade uma proposta bastante curiosa e original no espectro do cinema de entretenimento.
O melhor: A sequência de acção central do filme, explosiva e visualmente assombrosa. E um 3d impecável.
O pior: Muito exagero visual que corta o pulso ritmado que um filme ‘Resident Evil’ costuma ter.
José Pedro Lopes