‘A Nightmare on Elm Street 2010’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

 

Os fãs do cinema de terror, e do ‘slasher’ em específico, deviam estar preparados: mais cedo ou mais tarde, Hollywood, e a Platinum Dunes de Michael Bay em específico, iriam refazer ‘Pesadelo em Elm Street’ e refazer Freddy Krueger. Esse dia chegou, mas a verdade é que nada poderia preparar um fã do clássico monstro de Robert Englund para o que o filme de Samuel Bayer nos reservava.

Por um lado, ‘A Nightmare on Elm Street 2010’ é um ‘remake’ mais fiel em termos de recriação ao filme original do que o divertido e eficaz ‘Friday the 13th 2009’ era. Por outro, é uma mudança abrupta de tom e registo para a personagem de Freddy e para a intriga que este apresenta. A realidade mais estranha é, no entanto, que este novo filme é tanto mais eficaz quanto mais se distancia do original de Wes Craven.

Nancy e os seus amigos andam a ser assombrados nos sonhos por um homem misterioso de rosto queimado, e uma luva com facas. Os seus pesadelos são cada vez mais vividos, com as feridas que sofrem enquanto dormem a materializarem-se nos seus corpos.

Quando um dos seus amigos morre violentamente durante o sono, Nancy depressa percebe que não pode voltar a dormir sob o risco de não voltar a acordar e que terá que desvendar a identidade do homem que os assombra para poder descobrir como sobreviver.

Na sua investigação descobre que os seus pais e os pais dos seus amigos haviam queimado vivo um homem num acto de vigilantismo. O seu nome era Freddy Krueger.

A primeira metade de ‘A Nightmare on Elm Street’ pega na premissa do filme original e torna-a num filme de mistério e investigação, algo nas linhas do clássico japonês de terror ‘The Ring’. E troca as voltas ao espectador: Nancy não lidera a história mas sim a sua amiga Kris. A origem de Freddy é reinventada num tom mais contextual e realista, e menos fantasioso. O tom aqui é mais solene e Samuel Bayer pega na fantasia ‘camp’ de Craven e torna-a num caso sério.

No entanto, todas estas intenções saem falhadas. O elenco juvenil do filme é tudo menos notável, e sequências que deveriam ter alguma intensidade dramática saem longas e chatas. Rooney Mara (‘Youth in Revolt’), a Alice de serviço, é a única actriz interessante numa selecção de actores sem qualquer carisma. Para piorar, Bayer comete o erro de repetir as cenas de terror do original. A cena da morte por arrastamento no tecto ou a sequência da banheira são aqui repetidas quase plano por plano, mas curiosamente com uma abordagem muito terror ‘light’. Algo estranho considerando que na segunda parte, o filme é tudo menos ligeiro.

Na segunda parte, o filme desprende-se do elemento ‘remake’ e ganha uma agenda própria. A mudança de tom é abrupta. O Freddy Krueger de Englund era um demónio dos sonhos, cheio de truques fantasiosos e uma atitude sarcástica, sempre com uma deixa cómica. O novo Freddy é tudo menos isso. Desfigurado de forma bizarra (não tão realista como foi promovida, apenas estranha e pouco convencional), sem deixas de humor, mais físico e com uma motivação nada de génio malévolo da lâmpada.

No filme de Craven sabíamos que Freddy perseguia as crianças que não matou quando assombrou Elm Street, e que ele era mau porque sim. Aqui, Freddy era um pedófilo e Nancy era a sua primeira criança molestada. Isto representa uma mudança radical na personagem. Na recta final, Freddy não tem deixas cómicas mas sim perversas.

No entanto, aceitando que este Freddy 2010 é um reflexo negro dos nossos tempos conturbados (como o dos anos 80 era tão festivo como a época em que habitou), este novo filme torna-se climático e perturbador quando entra na sua segunda parte. Freddy e Nancy partilham uma sequência num quarto onde Freddy quer recriar os seus abusos, usando agora o seu poder de entidade sobrenatural. A sequência roça o revoltante e abusivo, especialmente para um ‘slasher’ comercial, mas é eficaz.
Não dá para julgar o Freddy reinventado. Esta personagem está radicalmente diferente: Haley é baixinho e inquietante, Englund era alto e esguio. O Freddy original era um mau pelo qual nós tínhamos uma estranha empatia, o novo Freddy é detestável para qualquer espectador. Estas reinvenções são no entanto necessárias. O Drácula de Gary Oldman (dos anos 90) nada tem a ver com os clássicos de Bela Lugosi e Christopher Lee. O mesmo aplica-se para o Frankenstein de Robert DeNiro. Os monstros clássicos são assim, espelhos desfigurados das suas épocas.

‘Nighmare 2010’ é, derradeiramente, um filme desequilibrado. Nancy e Freddy travam um novo duelo, perverso e estranho, mas o filme perde imenso tempo – especialmente no primeiro acto – com os secundários que são desinteressantes e mal actuados. As novas sequências de terror são climáticas e por vezes visualmente arrojadas, mas o filme comete o erro de fazer de forma ‘light’ as cenas de terror do original. E o tom negro e solene do filme pura e simplesmente não consegue casar de forma lógica com um filme que usa vezes a mais de efeitos visuais computorizados.

O melhor: O novo mundo de horrores entre Nancy e Freddy Krueger.

O pior: O elenco secundário e uma primeira metade desastrosa na hora de repetir as cenas de terror originais… do original.

A Base

Refazer ‘A Nightmare on Elm Street’ era uma tarefa difícil. Mas o filme de 2010 é meio trabalho bem feito meio falhanço total. Com uma agenda negra e alguma ousadia para um filme de terror ‘hollywoodiano’, o filme erra quando repete de forma ligeira o original. 6/10

José Pedro Lopes

 

crítica: ‘A Nightmare on Elm Street 2010’ por Jorge Pereira (1/10)

 

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