‘Alice in Wonderland’ por José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

A alma de Tim Burton está em risco. Não digo a sua carreira, é claro. Vai presidir o Festival de Cannes e volta a conseguir com ‘Alice in Wonderland’ mais um sucesso comercial, muito alicerçado quer no seu nome quer na força comercial daquele que é um dos “blockbusters” do momento.

Mas a verdade é que, o mundo “Burtiano” viu todas as suas regras invertidas no despertar dos anos 2000. Os seus melhores esforços foram “flops” (‘Big Fish’ e ‘Sweeney Todd’) e os seus piores trabalhos foram sucessos (o ‘remake’ sem alma nem respeito de ‘Planet of the Apes’, o entediante e repetitivo ‘Charlie and the Chocolate Factory’ e o apenas relativo sucesso de ‘Corpse Bride’, uma tentativa falhada de repetir o trunfo de “A Nightmare before Christmas” que produziu nos 90). E pior, Christopher Nolan remeteu os seus ‘Batman’ para o esquecimento…

Os erros recentes repetem-se e multiplicam-se em ‘Alice in Wonderland‘, que apresenta um Tim Burton sem imaginação que, manda a regra, encontra o sucesso comercial. Com uma história dispersa e uma grande falta de ritmo, os apontamentos mais interessantes do relato são muito semelhantes às melhores ideias do recente “Where the Wild Things Are”.

Mas o erro mais grave é o mais surpreendente: o novo filme de Burton é visualmente inferior ao seu trabalho habitual e conta com grandes erros de design de produção. Os cenários são, na sua maioria, pobres e descaracterizados. Johnny Depp até está muito bem, mas o visual do seu Chapeleiro pesa nos excessos de caracterização. As criaturas que habitam o País das Maravilhas estão, frequentemente, mal conseguidas, como os dois coelhos do relato ou o vilão Stayne.

“Alice” não foi filmado em 3d mas sim em 2d, intencionalmente. Por motivos de produção, Burton e a equipa preferiram “3dizar” o filme “à posteriori”. Um realizador que outrora primou pelo perfeccionismo visual toma assim uma decisão ou economicista ou preguiçosa – sem dúvida má. O “3d” do filme é muito fraco (para não dizer não existente), e o filme perde terrivelmente na cor, uma pena considerando o potencial do projecto.

Tal como uma banda dos Anos Oitenta que tenta se agarrar à fama através de ‘álbuns’ que nada mais são que imitações fracas do material que os glorificou, Tim Burton é agora uma sombra do realizador que outrora foi.

Uma sugestão para o autor de “Beetlejuice” (e “Edward Scissorhands”): nunca mais usar Johnny Depp, Helena Bonham Carter nem o compositor Danny Elfman, e não fazer mais nenhum filme num mundo imaginário negro.

Adorava ver esse filme.

O melhor: A relação do Chapeleiro com Alice, e as actuações de Johnny Depp e Mia Wasikowska.
O pior: Tim Burton é agora uma sombra do realizador que outrora foi.

  A Base

Com um “3d” falso, “Alice in Wonderland” não tem a magia do relato original nem do bom trabalho de Tim Burton. 2/10
José Pedro Lopes

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