‘Alice in Wonderland’ por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

 

 
 
Sou um fã do Lewis Carroll e do Tim Burton, por isso fiquei curioso quando, há algum tempo, se soube que este último ia pegar na obra do primeiro e adaptá-la ao cinema. Com a banda sonora do “The Nightmare Before Christmas” sendo um dos álbuns mais tocados no meu leitor mp3, tendo adquirido o “The Melancholy Death of Oyster Boy” quando saiu e tendo visto vários curtos no seu site, para além dos filmes no cinema, Tim Burton é dos realizadores que mais me emociona e um dos meus preferidos. Nem vale a pena falar da estima e admiração que tenho por Lewis Carroll e pelas suas personagens que conheço desde pequeno. Talvez seja aí que começam os problemas deste filme para mim. Este é um filme da Disney: há um esforço óbvio por transformar uma obra anárquica e baseada nos jogos verbais e lógicos, numa “lição de vida”, numa viagem da personagem de descoberta e crescimento e num espectáculo essencialmente visual. A história pouco tem a ver como o original, tendo ficado as personagens principais e algumas passagens dos livros que são repetidas à exaustão, como se lhe conferissem algum valor. Na prática, a história está para o livro, como o “Hook” está para o “Peter Pan” e é igualmente desapontante, mas não se poderia esperar mais de uma escritora que só esteve ligada a filmes da Disney como “O Rei Leão” e “Mulan”. A adaptação directa da história original, filmada com o estilo de Burton teria resultado muito melhor.

Quanto à tecnologia 3D, esta está ainda numa fase muito infantil, com características que se tornam maçadoras como o apontar para fora do ecrã com objectos ou os travellings atrás das personagens que nos lembram jogos de computador. “Alice” sofre nesta tecnologia um desaproveitamento do estilo tão característico de Tim Burton, ficando-se por um CGI que parece tornar semelhantes todos os filmes que o usam.

As representações são, com as excepções de Anne Hathaway e Crispin Glover, exemplares perante o material que lhes é dado e nem a banda sonora de Danny Elfman se safa de uma intervenção da Disney, com Avril Lavigne a cantar o tema final, num registo completamente diferente.

Quando acabou o filme, estava a duvidar da minha capacidade para me encantar com o cinema e com a magia, mas duas crianças à minha frente pareciam partilhar da minha opinião, trazendo-me alguma paz. Este é um exemplo de como uma produtora consegue prejudicar o trabalho de um realizador que, mesmo com um estilo tão próprio, acaba por desaparecer nas exigências feitas. Apesar de tudo, e se conseguirmos esquecer-nos dos livros do pobre Lewis Carroll, este é um filme fácil de se ver e que, estou certo, gozará de algum sucesso.

O Melhor: O gato de Cheshire e alguns elementos típicos de Burton.

O Pior: Não me conseguir esquecer do original.

Base
A adaptação directa da história original, filmada com o estilo de Burton, teria resultado muito melhor…6/10

 

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