
Apesar dos fãs portugueses ainda estarem ávidos por mais sangue, parece mesmo que a odisseia de Jigsaw não irá aparecer nos cinemas nacionais. Uma pena, porque à sexta entrega da série volta a apresentar sinais de vida – mesmo num filme terrivelmente mal actuado e sucumbido a uma estrutura já muito gasta.
A série “Saw” pode ser muito formulática (sempre o mesmo twist final e a mesma lógica) mas pelo menos tem a ambição de contrariar o que estava estabelecido pelo cinema “slasher”. Em vez de um vilão fixo temos vilões que mudam (Tobin Bell continua a fazer ‘cameos’, mas já vamos no quarto vilão diferente na série); em vez de heróis bonzinhos e ingénuos seguimos a luta pela sobrevivência de personagens sem escrúpulos e que merecem, de certa forma, o castigo que lhes espera.
Neste sexto capítulo, os criadores afinaram algumas ideias. “Saw VI” não tem vítimas aleatórias, mas sim remetidas a um “tema”: Jigsaw ataca o sistema de saúde americano e as seguradoras. E em vez de termos várias vítimas a tentarem salvar-se de armadilhas, temos apenas uma a ser forçada a seguir jogos perversos onde pode evitar, não a sua morte mas a de outros.
Considerando a repetição em que a série havia caído, há aqui claras novidades: “Saw VI” é o purgatório de uma personagem e nessa dimensão consegue ser algo interessante.
Mas por outro lado, a narrativa do vilão Jigsaw continua na sua rota descendente. A personagem da mulher de Jigsaw e a do polícia com duas faces (pessimamente interpretada por Costas Mandylor) é rebuscada e acima de tudo entediante. Os elementos iconográficos (como o boneco e as cassetes) continuam a ser pouco utilizados, fragilizando a lado do vilão.
Acabando a análise, falta ainda falar “no que mais interessa”. E se estamos a falar do “Saw”, temos de falar das mortes e da violência. “Saw VI” foi o primeiro filme a ser censurado em Espanha e foi fortemente atacado pela sua suposta violência. A verdade é que o sexto filme não é muito diferente dos anteriores em termos de violência. Apesar da sequência de abertura ser particularmente cruel e forte, o resto do filme tem mais ou menos a mesma “estrutura de mortes” dos anteriores – com uma diferença: no purgatório que seguimos em “Saw VI” a violência ganha outro tom. Em vez de as personagens a sofrerem em armadilhas vêmo-las colocadas em cenários onde nada podem fazer a não ser aguardar que uma outra as salve. E nessa alteração, a violência perde um pouco de espectáculo e ganha em sadismo.
No final de contas, “Saw VI” mostra que ainda há vida e sangue fresco na série e que esta pode ainda impor respeito. mas falha demasiado na escolha de actores e na personagem de Jigsaw, uma miragem do monstro que era Tobin Bell nos três primeiros filmes.
O Melhor: O purgatório do corrector de seguros – uma sucessão de setpieces perversos.
O Pior: Costas Mandylor é um péssimo vilão.


