“Capitalism: A Love Story”

(Fotos: Divulgação)
 
 

 
O cinema documental nunca foi um exemplo de objectividade, com os seus começos em “Nanook of the North”, um filme sobre esquimós que, para além de ter sido filmado uma segunda vez com um protagonista que não o referido Nanook, obrigou as suas personagens a utilizarem técnicas obsoletas para manter a “autenticidade” da sua vida. Ainda assim, há exemplos como Errol Morris e Adam Curtis que são grandes nomes neste estilo e que tentam, mesmo dentro das limitações do meio e da narrativa imposta por este, explorar os temas com alguma seriedade. Michael Moore não se insere nesses nomes.
Após o que poderá ser o seu melhor filme, “Roger and Me”, Moore definiu um estilo de comédia semi-documental com uma agenda política óbvia e baseada em truques quase absurdos. Embora se possa discutir o sucesso do seu estilo, não se pode chamar aos filmes de Moore “documentários”. 
“Capitalism: A Love Story” é mais um filme de Moore focado sobre um tema sociopolítico sério que afecta a realidade norte americana diariamente. Organizado à volta de alguns tópicos que quer desenvolver dentro desse tema, Moore consegue alcançar um bom efeito emocional de empatia pelo sofrimento das pessoas e de asco pelas acções tomadas quase de forma anónima. Infelizmente, intercala estes momentos com os seus truques absurdos, perdendo-se o efeito obtido num riso fácil e esquecível. No final, parece que se vai alternando comer bolas de lama com bombons finos, o amargo desagradável e o frio no estômago pelo doce e reconfortante, ficando um filme muito pouco coerente e pouco eficiente. Mais do que uma exposição sobre as consequências da desregulação do mercado e do capitalismo selvagem e de quem mais lucrou e lucra com isso, Michael Moore acaba por fazer um veículo para a ira da classe média que desaparece, facilmente digerido e esquecido, sem qualquer efeito final, destinado a ser discutido nas mesas do café à frente de uns petiscos e umas cervejas.
O tema merecia mais. 
O Melhor: as partes mais “sérias” são, por vezes, muito eficazes.
O Pior: o simplificar e aligeirar de um tema que não é nem simples nem leve.
A Base: O tema merecia mais. 6/10
 
João Miranda 

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