Parece haver uma obsessão nos últimos anos com a veracidade das histórias que se pretende contar: todos os filmes parecem ser baseados ou inspirados em factos reais. O ano passado “Changeling”, de Clint Eastwood, teve reacções diferentes conforme a versão apresentada no circuito dos festivais incluía a frase “Inspirado em eventos reais” ou não, parecendo que a falsa autoridade dessa frase nos predispõe a ser mais tolerantes para com as faltas no filme. ”Julie & Julia” leva essa tendência um passo à frente: não contente em basear-se numa única história verdadeira, baseia-se em duas, como se isso o tornasse ainda mais verdadeiro do que os outros filmes.
Este novo filme de Nora Ephron, realizadora de comédias românticas conhecidas como “Sleepless in Seattle” e “You’ve Got Mail”, conta a história de duas mulheres insatisfeitas com a sua vida e a forma como encontram na cozinha algo que as move e as emancipa. Uma dessas mulheres, Julia Child, representada por Merryl Streep, é um ícone na cultura dos Estados Unidos, co-autora de uma das bíblias da culinária francesa na língua inglesa, mas relativamente desconhecida na Europa; a outra é Julie Powell, representada por Amy Adams, que há uns anos resolveu fazer todas as receitas dessa dita bíblia no período de um ano, escrevendo num blog os resultados.
As duas histórias vão-se intercalando num esforço de paralelismo entre as duas experiências, mas, infelizmente, a narrativa sobre Julie Powell é mais fraca, com uma cena num bar em que a pobre da Amy Adams pergunta à amiga se é uma cabra, quando todo o filme a vimos como uma coitada, para poder justificar os acontecimentos anteriores. Isso, associado ao incrível desempenho de Merryl Streep – perante uma Amy Adams que se parece mais com uma Meg Ryan do que com ela própria em filmes anteriores – faz com que o filme se torne um pouco desequilibrado.
O Melhor: Merryl Streep, nem é preciso dizer mais nada.
O Pior: a história de Amy Adams é fraca, desequilibrando o filme.

João Miranda

