Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.“
John Keats
É desde logo um filme que pede que seja visto num grande ecrã, para apreciar o belíssimo trabalho de fotografia de Greig Fraser, em conjunto com os planos que Campion vai desenhando a partir do seu próprio argumento, numa harmonia que revela um controlo sobre o material e maturidade perfeitas.
Além disso, este não é propriamente um “biopic” convencional. Campion sempre teve fortes protagonistas femininas, e decidiu aqui ter como protagonista principal não o poeta John Keats, mas sim o seu grande amor – Fanny Brawne (a sua “bright star”), e no efeito que o poeta teve nela, e o amor que os uniu e que apenas a morte separou. É sobre ela que recaem os olhos do espectador – tornamo-nos testemunhas silenciosas da sua vida, da alegria pelas cartas que recebe de Keats, à angústia por ficar sem ter notícias e ao colapso final. A Abbie Cornish coube a difícil tarefa de servir de canal entre o público e a história de amor, e de tornar todas estas emoções contraditórias naturais, e a actriz supera esta prova com uma facilidade enganadora, numa performance ora repleta de toques subtis, ora mais explicitamente devastadora, no último troço. Se houver justiça, voltaremos a ouvir falar dela daqui a uns meses com os Oscars… tanto como o extenso guarda-roupa que usa, a cargo de Janet Patterson.
Igualmente brilhante e natural está Ben Whishaw. No papel de John Keats, e embora com menos destaque no ecrã do que se poderia esperar, o actor faz com que todas as palavras que ecoa do poeta soem a verdades absolutas. Juntos, Cornish e Whishaw ajudam a tornar um romance de outros tempos credível e pungente. Paul Schneider (em modo “alívio cómico” sempre bem-vindo, e dotado de um sotaque escocês), Kerry Fox e a estreante Edie Martin (no papel de “Toots”) lideram o elenco de secundários com performances não menos marcantes.
Para um romance tão puro e casto (uma primeira vez para Campion?), é ainda mais incrível como certos momentos se tornam eróticos sem mostrar qualquer pele a mais. Uma breve e simples cena em que Keats e Fanny tocam na parede que os separam torna-se mais sensual que qualquer “thiller erótico” de sexta à noite.
Campion pode não ter um sucesso de bilheteiras aqui, mas fez mais uma obra-prima e um sério candidato a filme do ano para mim.
O Melhor: Uma história de amor, das mais puras, verdadeiras e pungentes que o cinema nos apresentou, a excelente recriação de época, as performances, as imagens, a música…
O Pior: A possibilidade eminente de não ter o sucesso que merece. E claro, não será para todos os públicos (e ainda bem!).
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| ampion pode não ter um sucesso de bilheteiras aqui, mas fez mais uma obra-prima e um sério candidato a filme do ano 10/10 |

