‘Bright Star’ por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
John Keats

Quem me dera ser um verdadeiro poeta como John Keats em tempos como este, e pudesse realmente expressar em palavras o que se passa na mais recente longa-metragem de Jane Campion, a sua primeira em seis anos – após o (injustamente) mal-amado “In the Cut”. Olhando para a sinopse e para os apoios adquiridos (BBC Films), desconfia-se que se trate de mais um telefilme. A tentação de etiquetá-lo como tal pode persistir até para alguns aquando o visionamento, mas “Bright Star”, aqui em ante-estreia no Estoril Film Festival, é tudo menos televisivo – no seu aspecto mais negativo pelo menos.

É desde logo um filme que pede que seja visto num grande ecrã, para apreciar o belíssimo trabalho de fotografia de Greig Fraser, em conjunto com os planos que Campion vai desenhando a partir do seu próprio argumento, numa harmonia que revela um controlo sobre o material e maturidade perfeitas.

Além disso, este não é propriamente um “biopic” convencional. Campion sempre teve fortes protagonistas femininas, e decidiu aqui ter como protagonista principal não o poeta John Keats, mas sim o seu grande amor – Fanny Brawne (a sua “bright star”), e no efeito que o poeta teve nela, e o amor que os uniu e que apenas a morte separou. É sobre ela que recaem os olhos do espectador – tornamo-nos testemunhas silenciosas da sua vida, da alegria pelas cartas que recebe de Keats, à angústia por ficar sem ter notícias e ao colapso final. A Abbie Cornish coube a difícil tarefa de servir de canal entre o público e a história de amor, e de tornar todas estas emoções contraditórias naturais, e a actriz supera esta prova com uma facilidade enganadora, numa performance ora repleta de toques subtis, ora mais explicitamente devastadora, no último troço. Se houver justiça, voltaremos a ouvir falar dela daqui a uns meses com os Oscars… tanto como o extenso guarda-roupa que usa, a cargo de Janet Patterson.

Igualmente brilhante e natural está Ben Whishaw. No papel de John Keats, e embora com menos destaque no ecrã do que se poderia esperar, o actor faz com que todas as palavras que ecoa do poeta soem a verdades absolutas. Juntos, Cornish e Whishaw ajudam a tornar um romance de outros tempos credível e pungente. Paul Schneider (em modo “alívio cómico” sempre bem-vindo, e dotado de um sotaque escocês), Kerry Fox e a estreante Edie Martin (no papel de “Toots”) lideram o elenco de secundários com performances não menos marcantes.

Para um romance tão puro e casto (uma primeira vez para Campion?), é ainda mais incrível como certos momentos se tornam eróticos sem mostrar qualquer pele a mais. Uma breve e simples cena em que Keats e Fanny tocam na parede que os separam torna-se mais sensual que qualquer “thiller erótico” de sexta à noite.

Campion pode não ter um sucesso de bilheteiras aqui, mas fez mais uma obra-prima e um sério candidato a filme do ano para mim.


O Melhor:
Uma história de amor, das mais puras, verdadeiras e pungentes que o cinema nos apresentou, a excelente recriação de época, as performances, as imagens, a música…

O Pior: A possibilidade eminente de não ter o sucesso que merece. E claro, não será para todos os públicos (e ainda bem!).

 

A Base
ampion pode não ter um sucesso de bilheteiras aqui, mas fez mais uma obra-prima e um sério candidato a filme do ano   10/10

André Gonçalves

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