“(500) Days of Summer” por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Escrevo estas linhas numa altura em que “(500) Days of Summer” continua sem data de lançamento definida. Uma situação que deveria quanto muito ser reservada aos filmes de qualidade mais suspeita, tem agora aquele que será definitivamente um dos filmes a marcar o final de década ainda com futuro incerto por nossas terras.

Um dos clichés tão grandes como o momento em que os protagonistas se juntam, de preferência num terminal qualquer de transportes, no final de uma comédia romântica, é dizer que já não se fazem comédias românticas como antigamente. Eu próprio já o terei dito, possivelmente numa crítica passada até. Se é um cliché, é porque de facto tem um fundo bem verdadeiro. É verdade que se contam pelos dedos de uma mão o número de obras-primas do género que vimos nas últimas duas décadas (assim de repente lembro-me de “Say Anything”, “When Harry Met Sally” e… “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”?).

E portanto, ao abordar uma comédia romântica, pensamos sempre: “Bem, na melhor das hipóteses, temos aqui umas boas gargalhadas com a Sandra Bullock e o gajo que escolheram desta vez” (ver “The Proposal”). Dado o final como adquirido, de preferência o menos forçado possível, quase que baixamos as expectativas, com medo do que possa vir aí.

E eis que entra “(500) Days of Summer”, um dos filmes mais aplaudidos dos últimos tempos, que se encontra já no top 250 de filmes do site imdb… claramente nos apercebemos que estamos longe de veículos para estrelas como Sandra Bullock ou Kate Hudson. Para começar, foram buscar dois novos talentos da geração “indie”, ao mesmo nível, e sem quaisquer problemas de ego: Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel, ambos irrepreensíveis, carismáticos, e que se complementam de uma maneira como poucos casais cinematográficos o fizeram num passado recente.

Mas a revelação do ano será mesmo Marc Webb, um realizador estreante nestas andanças, e a dupla de argumentistas Scott Neustadter e Michael H. Weber, cujo único crédito de relevo anterior tinha sido… o argumento de “Pink Panther 2”. A estrutura do filme de saltar para trás e para a frente não será inovadora “per se”, mas é no realismo a captar um grande amor (para uma das partes) que o filme realmente nos conquista e nos faz mesmo apaixonar perdidamente e gritar – não o que os dois protagonistas gritam a certa altura- mas um “VEJAM ISTO!”.

Este será aliás, não só uma das comédias românticas mais sinceras alguma vez feitas, como uma que compila alguns dos momentos mais mágicos vistos em muito tempo, feitos em muitos casos de aproximações genuínas e merecidas à cultura pop/cinéfila. No dia após finalmente dormir pela primeira vez com Summer, Tom sai de casa e entra quase como que num musical, como os que se faziam noutros tempos na MGM (embora com twists vindos quer da Disney quer de outros meios), ao som de “You Make My Dreams” de Hall & Oates. O êxtase será semelhante em muito espectador que acabar de visionar este filme. O que é certo é que demorará bem mais de 500 dias para ultrapassar este amor repentino. Este pode bem ser “o tal”.

O Melhor: Fazer acreditar que o amor pode de facto existir, ao contrário do Pai Natal. O realismo esmagador do romance, do início ao fim.

O Pior: A possibilidade de ver um filme destes ir directo para uma prateleira poeirenta.

A Base
Uma das melhores e mais sinceras comédias românticas dos ultimos 20 anos, ainda sem data de estreia marcada no momento desta crítica… 10/10

André Gonçalves

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