
A afirmação de um artista perante a inércia do movimento da História e a interrogação da motivação do acto criativo, são as bases para este filme franco-belga que ganhou no início deste ano 7 Césares, dos 9 para os que estava nomeado, incluindo o César para Melhor Filme.
Seraphine desdobra-se em várias tarefas mundanas, servindo as pessoas que, na sua aldeia, a tomam por uma simplória, meia tonta e bruta, refugiando-se à noite no seu pequeno quarto alugado onde pinta pequenos quadros com tintas que faz de materiais que vai juntando como pode, motivada por um fervor religioso. É aí que, em 1914, Wilhelm Uhde, coleccionador alemão de arte naïf famoso, descobre uma das suas criações e, nela, o talento que se esconde debaixo da mulher que lhe limpa a casa e que mal interage com ele.
É um filme que tenta não cair no cliché do artista que sofre pela sua arte, mostrando antes a resiliência e a persistência de Séraphine perante as forças maiores que a rodeiam, na pobreza, nas pessoas, na estrutura social da aldeia e na guerra que assola a Europa, o refúgio na rotina do dia-a-dia, das tarefas repetitivas e embrutecedoras, no silêncio perante a arrogância ou o paternalismo com que a tratam, na pura sobrevivência durante a Guerra, na natureza e na Fé.
Yolande Moreau desempenha o papel principal com uma mestria que impede que este se torne numa caricatura ou demasiado pesado, tendo ganho, ela também, o César, neste caso para Melhor Actriz num Papel Principal.
Outro César ganho por este filme foi o da Cinematografia, visível pelo cuidado posto em cada enquadramento usado, com uma palete que favorece o contraste entre as condições esquálidas em que vive, o vigor da natureza que a rodeia e o esplendor das suas telas que vai crescendo com o tempo.
É um filme com um ritmo lento, quase como um quadro ou a passagem dos anos, o que pode tornar-se cansativo, até porque ultrapassa as duas horas de duração, mas que se justifica pelo tema explorado.
O Melhor: a representação de Yolande Moreau e a fotografia.
O Pior: Lento e longo.
| A Base |
| É um filme com um ritmo lento que pode tornar-se cansativo, até porque ultrapassa as duas horas de duração.. 7/10 |
João Miranda

