“Incendiary” por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Como se supera a dor depois de um evento traumático? “Incendiário” é o novo filme de Sharon Maguire, sete anos depois de “O Diário de Bridget Jones”. Escrito e realizado por ela, baseado no livro de Chris Cleave, o filme foca-se na história de uma mulher que perde marido e filho num atentado bombista em Londres e que tenta lidar com a dor e a destruição provocadas.

A crítica recebeu o filme com alguma frieza, acusando-o de estar cheio de clichés e de excesso melodramático e concordaria com tal crítica, se tomasse a história como literal, mas o filme é mais do que isso: após o atentado, o filme transforma-se numa alegoria em que a vida e o corpo de Michelle Williams se transformam na própria Londres. Em choque pelo atentado, a paranóia do discurso anti-terrorista em cada esquina, em posters e em cada elemento que lhe lembra a convivência com o estranho no dia-a-dia, Michelle / Londres vê-se apanhada na luta entre a acção e verborreia oficial contra a dos jornalistas, nas interacções de duas personagens que fazem dela objecto das suas fantasias, confundindo-se interesses pessoais com o bem maior.

Este é um filme no feminino, que recusa os discursos masculinos vigentes e reclama um novo, construído não de forma literal e melodramática, não de destruição ou paranóia, não de sensacionalismo ou mediatismo, mas um discurso afirmativo de vida, de persistência, de abertura e procura do melhor no outro. Acaba por ser uma homenagem às mulheres e a Londres, e à sua força e perseverança nos momentos mais difíceis.

É um filme no feminino também no cuidado da imagem e do texto, e na representação de Michelle Williams que mostra – como em “Wendy e Lucy” que vi no Indie Lisboa deste ano – que consegue suportar sozinha um filme e que merece ser reconhecida como uma das actrizes em ascensão na indústria.

O Melhor – Michelle Williams
O Pior – Se levado de modo literal, torna-se um filme pesado e inconsistente.

A Base
Uma homenagem às mulheres e a Londres, e à sua força e perseverança nos momentos mais difíceis….. 8/10
 
João Miranda
 
 
 

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