«Shotgun Stories» (Histórias de Caçadeiras) por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

 

Son (Filho) Hayes tem nas suas costas cicatrizes de um passado do qual não fala. Na sua vida, o abandono de um pai alcoólico e despegado (deu aos filhos os nomes Son – Filho, Boy – Rapaz e Kid – Miúdo) em troca de uma nova família e uma recém-encontrada religião, também o marca e essa dor é expressa de forma ofensiva, aquando da morte dele, no seu funeral. É esse o evento que vai despoletar a contenda familiar entre meios-irmãos de duas famílias completamente distintas, onde se baseia este filme.

Passado numa vila do interior sulista americano, o filme assume o passo lento, quase indolente, do extremo calor que se faz sentir. Os três irmãos percorrem as ruas da vila vazia e tentam, para além da rotina do trabalho, perceber como viver a sua vida. A sociedade patriarcal e violenta na qual participam faz com que as alternativas que têm para lidar com a situação originada pela morte do pai sejam limitadas e insatisfatórias.

O tema já foi explorado várias vezes, incluindo na literatura clássica, talvez por isso, tudo no filme, desde a indefinição das personagens pela ausência de um nome próprio, até às cores e banda sonora utilizadas, parecem dar a ideia de que estamos a assistir a uma tragédia clássica, em que os intervenientes pouco controlo têm sobre as suas acções, limitando-se, como actores, a seguirem um caminho pré-definido sem o porem em causa. Pelo menos quase até ao fim.

“Shotgun Stories” é um filme sobre a dor impossível de expressar numa masculinidade exagerada e sobre o que, por vezes, se tem de passar até se pôr em causa esse papel social, mas fá-lo de uma forma natural e fluida.

O Melhor: A naturalidade da narrativa.
O Pior: A iluminação; por vezes, em falta, outras, artificial; se era simbólico, escapou-me o simbolismo.

 

 

João Miranda 

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