“Gran Torino” por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

A velhice e a forma como cada um lida com isso não é uma temática ausente nos filmes de Clint Eastwood. Basta lembrar “Space Cowboys”, “Unforgiven” e até mesmo “Million Dollar Baby”.

E se em “Mystic River” Eastwood “lavou” os pecados do seu Dirty Harry, aqui ele dá aos mesmos uma espécie de reforma brilhante.

Walt Kowalski é um veterano da guerra da Coreia cuja esposa morreu recentemente. Aliás, o filme começa exactamente mostrando a cerimónia fúnebre. É aí que temos o primeiro contacto com o seu constante rosnar, quer quando observa o piercing da neta, quer quando assiste, sempre desconfiado aos sinais dos tempos de hoje.

Agora, e sozinho, ele passa os dias no seu alpendre, com a bandeira americana como pano de fundo, sempre com a sua geleira ao lado, a beber cervejas e a observar as mudanças que o seu bairro – antigamente caucasiano – vai sofrendo.

É aí que ele vai ter o primeiro contacto com uma família asiática que vive a seu lado e que o incomoda de sobremaneira, pois ele nunca sabe bem quantos “Swamp Rats” cabem naquelas casas.

Porém, quando um dos jovens vizinhos é atacado por um gang, que o procura recrutar, Walt reage, tornando-se – mesmo contra a sua vontade – numa espécie de herói comunitário.

A partir daí o drama intensifica-se, ficando o jovem cada vez mais ligado a Walt, e este proporcionalmente cada vez mais afastado da sua família e próximo dos problemas com o dito gang.

É muito curiosa a evolução da personagem de Eastwood, ainda que perfeitamente previsível. Aliás, se pensarmos bem, esta é claramente uma das obras onde é mais fácil de adivinhar o que vem a seguir e onde a solidão é um dos caminhos certos para a personagem.

A diferença cultural, entre o chamado mundo ocidental e o mundo oriental, na forma de tratar os seus familiares é abismal, mesmo nas pequenas coisas.

É nesse jogo e enriquecimento da personagem que o filme ganha e muito. Eastwood cria imediatamente uma empatia gigantesca connosco logo nos primeiros minutos, permanecendo o espectador sempre atento ao seu destino final.

E ao contrario de obras como “Million Dollar Baby”, aqui os sentimentos nunca são explorados até à exaustão. Eastwood, apesar de apresentar uma vida como tantas outras – em situações extremas – nunca cai no facilitismo emocional e no puro melodrama. Ele prefere muito mais manter sempre uma distância, até porque Walt nunca se entrega realmente – e completamente – a ninguém.

O Melhor
– Estwood na sua plenitude
O Pior – Algumas interpretações de secundários

A Base
“Se em “Mystic River” Eastwood “lavou” os pecados do seu Dirty Harry, aqui ele dá-lhe uma espécie de reforma brilhante … 9/10
 
Jorge Pereira
 
 

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