“Julia” por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Até à data só vi um filme de John Cassavetes – e nem foi o mais popularizado “Gloria” (esse, só o remake protagonizado por Sharon Stone). Foi há pouco tempo atrás, na cinemateca, mas deu para perceber logo os elogios e a estética que este nome maior do cinema independente norte-americano empregava (o filme em questão era “Minnie and Moskowitz”).

“Julia” não é realizado por Cassavetes, obviamente. O realizador faleceu há exactamente 20 anos, vítima de cirrose, deixando para o mundo um legado e uma forte impressão em inúmeros cineastas e cinéfilos. Entre os quais, contam-se Jonathan Demme, que assinou o recente “Rachel Getting Married”. E contar-se-á certamente também Erick Zonka, realizador de “A Vida Sonhada dos Anjos” que aqui assina um veículo autêntico para a actriz Tilda Swinton.

Não é por acaso que lancei as comparações a Cassavetes. Para além da história ter as suas semelhanças com “Gloria”, o estilo de narrativa lembrou-me também o único filme que vi dele, e que deveria ser a sua grande marca de autor, segundo o que pude averiguar: uma total fluência nos diálogos, sem cortes, com espaço para desenvolvimentos. Não admira portanto a duração final do filme, perto das duas horas e meia, criticada desde a exibição da película no Festival de Berlim em 2008.

Não irei criticar tal aspecto. Quanto muito, “Julia” terá demasiada trama para um filme só… mas antes ter trama a mais do que a menos, certo? É um filme de coincidências (de “karma” acima de tudo) e reviravoltas , e quando julgamos que estamos a caminhar para um final, eis que o filme tem uma outra surpresa na manga.

Quanto a Tilda Swinton, tem aqui carta branca para soltar-se ao máximo e, pela primeira vez em muito tempo, poder para ela e apenas ela a comandar um filme. Sem menosprezar o restante elenco, esta foi uma obra claramente concebida para uma actriz brilhar, e Swinton cumpre o papel com uma facilidade tremenda, escondendo um trabalho estrondoso perante uma personagem tão pouco certinha e que vai desafiando a moral do espectador.

Há um motivo pelo qual me abstive de contar a sinopse geral do filme no meio desta deambulação. Este prende-se sobretudo com o facto de este ser um filme que merece ser descoberto ao acaso numa sala escura, com o mínimo de noções sobre o que vai acontecer, saíndo agradavelmente surpreendido com o que se viu. Tendo em conta que se adivinha uma carreira comercial difícil nos cinemas, talvez seja este o cenário mais provável para muitos, de qualquer das maneiras.

“Julia” é definitivamente uma das surpresas agradáveis deste início de ano.

 

O Melhor: Tilda Swinton com um filme só para si.

O Pior: Pode ser trama e reviravolta a mais para alguns.

 

A Base
“[…]um filme de coincidências (de “karma” acima de tudo) e reviravoltas[…]’Julia’ é definitivamente uma das surpresas agradáveis deste início de ano”… 8/10
 
André Gonçalves

 

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