
“A Corte do Norte”, adaptação de um romance de Agustina Bessa-Luís, é acima de tudo um “puzzle” ambicioso montado pelo argumentista e realizador João Botelho, e uma tentativa de dar novo fulgor a um género que se encontra cada vez mais insosso, sobretudo pelas nossas terras – o drama histórico.
Ao longo de cinco gerações de uma família madeirense, vemos um mistério sendo desvendado aos poucos. Uma jovem, que deseja saber mais sobre a sua trisavó Rosalina, vai tentando buscar a verdadeira história dos seus antepassados por documentos ou relatos de familiares ou pessoas próximas.
Filme de mistério misturado com drama de época, “A Corte do Norte” fica contudo aquém das suas altas ambições.
João Botelho é claramente um dos cineastas menos conformistas da sua geração, e aqui apresenta algumas soluções narrativas interessantes (ou conserva, uma vez que muitas já viriam do texto original), que adensam a intriga e impedirão muitos espectadores de adormecer na cadeira.
Cruzando “flashbacks” avisados muitas vezes pela narração feminina (que me fez lembrar a narradora de “The Age of Innocence”, com as devidas distâncias) e as personagens nas suas posições, imóveis, o filme não consegue no entanto reinventar ou até destacar-se de outros dramas do passado.
E além disso, apesar de evitar o aborrecimento e desinteresse total, o filme não consegue evitar alguma pouca naturalidade das personagens e de respectivas falas, tão presente em muito do nosso cinema. Sentimo-nos presos a uma história, sim, mas só em alguns segmentos acreditamos completamente nos sentimentos envolvidos e nos sentimos sugados para dentro do filme, em vez de estarmos como meros observadores curiosos.
O que resta? Resta-nos a confirmação de que Ana Moreira é actriz suficiente para carregar não um, não dois, mas cinco (!) papéis distintos num só filme. E claro, a certeza que Portugal consegue ombrear com outros países de maiores recursos no que toca a reconstituições de época nos aspectos mais técnicos – destaque para o sumptuoso guarda-roupa, as belas paisagens da Madeira e a direcção de fotografia de João Ribeiro. (De acrescentar que este é o primeiro filme de Botelho filmado digitalmente.)
Um filme minimamente interessante que não será uma grande revolução na indústria, mas tem algo para manter, pelo menos, os fãs do cinema de época despertos. A ver sem grandes expectativas, portanto.
O Melhor: Ana Moreira vezes cinco e a reconstituição de época bem conseguida.
O Pior: Alguma falta de naturalidade no texto faz com que o espectador raramente se sinta tão envolvido como deveria.
| A Base |
| “Um filme minimamente interessante que não será uma grande revolução na indústria, mas tem algo para manter, pelo menos, os fãs do cinema de época despertos” …. 5/10 |
André Gonçalves

