“L’Heure d’Été” por Patrícia Pereira

(Fotos: Divulgação)

 

Uma casa de campo. Um verão familiar. Neste cenário, 3 irmãos e respectivas famílias estão reunidos para festejar os 75 anos de sua mãe, Hélène Berthier (Edith Scob). Esta tornou-se, ao longo dos anos, a guardiã da obra do seu tio, o pintor Paul Berthier, dando à casa um carácter de mausoléu. Mas aquilo que aparece como um encontro familiar comum e alegre toma rapidamente outro rumo perante a apresentação da inevitabilidade da morte e consequente herança.
De facto, quando Hélène falece passado uns meses, os irmãos voltam a encontrar-se para tratar da partilha. Frédéric (Charles Berling), o irmão mais velho, economista e o único a residir em França, vê as suas expectativas de manter o legado intacto frustradas quando Adrienne (Juliette Binoche), designer estabelecida em Nova Iorque, e Jérémie (Jérémie Renier), executivo sediado na china, revelam preferir desfazer-se do espólio familiar.
À medida que o filme se desenrola, os segredos da família vão surgindo e são-nos desvendados os laços existentes entre cada uma das personagens, alguns fortalecendo-se e outros desaparecendo.

A sequência inicial, que retrata uma caça ao tesouro entre as crianças, acaba na verdade por dar o mote a todo o filme. A colecção privada e a própria casa são os verdadeiros tesouros da história, pois representam a identidade daquela família. A relação com os objectos é tocada em quase todos os aspectos: o objecto com valor sentimental, artístico, histórico, económico, social, estético ou ainda utilitário.

E a neutralidade é total. Até a decência da resolução da partilha é representativa disto. Há compreensão e sensibilidade do início até ao fim. Tempos de Verão é feito de subtilezas, não pretende julgar ninguém. Apenas mostra a realidade dos relacionamentos tanto com os objectos como com as pessoas mais próximas, perante os vários pontos de vista possíveis. O que retira tensão de que o filme precisava para ganhar algum alento.

Mas se, por um lado, o excesso de “politicamente correcto” se torna bastante enfadonho, por outro, consegue poupar-nos dos melo-dramatismos a que este tipo de tema se presta. Tanto que até encontro alguma dificuldade em classificar esta película como drama… Quase que poderia tratar-se de um documentário sobre uma qualquer família burguesa e o seu legado à história da arte. Também contribui para isso o facto de terem usado verdadeiros artefactos, cedidos pelo próprio Museu de Orsay.

Assayas consegue portanto tocar-nos pela verosimilhança de todo o enredo. O sentimento de nostalgia é completo. Todo o elenco é muito bem conseguido. Só é pena a contemplatividade tornar-se demasiado plácida.


O Melhor
: As personagens muito bem definidas e reais tanto enquanto indivíduos como enquanto conjunto familiar.

O Pior: A falta de um clímax que pudesse dar mais alento ao filme.

A Base
Um filme que retrata as subtilezas das relações humanas quando se encontram intrinsecamente ligadas a objectos. Plácido mas verosímil e muito bem representado..…. 6/10
 
Patrícia Pereira

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