
A correria selvagem de cavalos a galope marca de forma metafórica o começo do filme “Patti Smith – Dream of Life”. Mais do que um documentário, é uma homenagem ao ícone de rock Patti Smith. O retrato da percursora do punk norte-americano na década de 70 é transposto para películas de 16 mm, maioritariamente a preto e branco, numa linguagem poética e numa envolvência visual intensa.
Num quarto intimista, Patti Smith revisita connosco os locais por onde passou, os momentos mais importantes, os objectos que guarda religiosamente e os mais variados aspectos da sua carreira, literalmente tirando memórias de um velho baú. Uma máquina pollaroid, uma guitarra antiga afinada por artistas como Bob Dylan, uma urna com os restos mortais do amigo Robert Mapplethorpe, um vestido de infância…
O filme também presta tributo às numerosas pessoas que marcaram sua vida, quer sejam parceiros, familiares, amigos ou ainda inspirações. Assim, vemos ainda nas filmagens os seus pais, que viriam a falecer antes do final do filme; os seus filhos Jesse e Jackson, que aparecem no início ainda como crianças, surgem, depois, já como adultos. As campas dos poetas Arthur Rimbaud e William Blake, entre outros, que parecem ter inspirado a veia artística da cantora desde a sua adolescência, são visitadas como que numa peregrinação de devoção.
O resultado dos 11 anos de filmagens que Steven Sebring teve o privilégio de passar com Smith só poderia ser visualmente rico e complexo como a carismática personalidade da artista. As suas várias facetas são expostas intermitentemente, desde concertos e entrevistas, a pinturas e fotografias. Passa-se da mulher suave e sensível à activista que grita pelos seus ideais, da mãe de duas crianças à lenda do rock com aspecto duro e masculino, da pintora sensível e contemplativa ao animal de palco que cospe a sua raiva. As memórias surgem de forma quase abstracta, mística.
Mas não aparece um vislumbre sequer das tormentas de uma vida que se advinha cheia de choques e de excessos, como a de qualquer lenda do rock. Neste aspecto, poderá haver muito da Patti Smith que nos passa ao lado. Na sua ânsia de mostrar a essência de uma lenda viva, o fascínio que Steven Sebring lhe tem resultou num retrato demasiado idílico, que perde aí alguma da sua credibilidade.
No entanto, a obra vale amplamente por restaurar aquele tipo de arrebatamento que se sente por ídolos que souberam impor-se de forma quase natural, fazendo o que mais lhes dá gozo, mas nunca estagnando. Inspira a viver uma vida para além da sonhada, o ímpeto de criar algo com substância, que persista.
7/10

