
Há pelo menos que aplaudir Clint Eastwood por continuar a tentar. O actor/realizador de 78 anos não mostra quaisquer sinais de abrandar, e, após “Changeling”, revisita a sua “persona” de homem duro com este “Gran Torino”, que será supostamente o seu último papel no cinema. Supostamente.
Talvez isso explique alguma dose extra de simpatia. Com outra pessoa a cargo, o filme seria mais facilmente visto como descartável. Mas com Eastwood, ganha outra dimensão para cinéfilos. Afinal, temos aqui um “Dirty Harry” envelhecido e mais preconceituoso que nunca.
Eastwood é Walt Kowalski, ou Mr. Kowalski mais formalmente – um recém-viúvo ex-combatente da Guerra da Coreia que vê a sua vizinhança invadida por “Hmongs” ou “chinocas”, como ele chama com tanto carinho.
A tentativa de um “gang” em recrutar um dos membros da família “Hmong” (o jovem Thao) faz com que o Sr. Kowalski perca todas as estribeiras e seja obrigado a intervir, primeiro com a desculpa de invasão do quintal, e posteriormente ganhando uma outra afinidade à família numerosa que vive a seu lado. Deve ser aquela comida deliciosa a fazer magia.
Entre rosnares, esgares, cuspos para o chão, voz a fazer lembrar o Batman de Christian Bale e brincadeiras com a mão a simular uma arma, Eastwood faz exactamente o que o espectador espera dele. Nada aqui será um grande desafio para o actor veterano, portanto.
Entre as tentativas de humor intencional e não tão intencional (deixa-se ao critério de cada um adivinhar o que é realmente intencional ou não), o filme vai funcionando aqui e ali, mesmo com a caracterização dos intervenientes a roçar o ofensivo.
Algumas personagens parece que vieram directamente de um filme de artes marciais/de vingança barato, daqueles que passam tanto aos fins-de-semana num certo canal privado de televisão – sem qualquer exagero. E há ainda espaço para resgatar o padre de “Million Dollar Baby”, que continua a querer lá no fundo que o protagonista se possa perdoar a si mesmo.
O problema torna-se mais visível quando o filme precisa que nos importemos realmente com as outras personagens. Embora seja uma mudança agradável do que se poderia esperar à partida, e quiçá o grande feito do argumento de Nick Schenk, não se consegue sentir o que se devia sentir, simplesmente porque não há qualquer emoção investida ali.
A realização é sóbria e elegante, como estamos à espera de Clint, mas também já em piloto automático. A banda sonora minimalista, que inclui o tema “Gran Torino” com o próprio Eastwood a cantar uma porção inicial (em algo que tem que ser ouvido para ser acreditado), também não traz muitas novidades.
“Gran Torino” será mesmo assim apreciado por fãs ferverosos de Eastwood, sobretudo os saudosistas da fase “Dirty Harry”, mas esta suposta despedida à frente da câmara acabou por deixar um sabor amargo na minha boca.

