
Às vezes pergunto-me qual será o peso exacto das expectativas na apreciação global de um filme. Uma questão sempre pertinente, e posta por muitos ao longo da história da crítica, certamente.
Por muito que uma pessoa se tente abstrair, um crítico, assim como qualquer espectador, vai ganhando naturalmente curiosidade em ver um filme, sobretudo quando este vai conquistando prémios atrás de prémios, ao ponto de já não precisar de prateleiras mas sim uma casa inteira para os meter.
Eis o caso extremo de expectativas perigosamente altas em “Slumdog Millionaire”, o filme-sensação do ano e favorito a conquistar uma meia dúzia de Oscars, incluindo os de Melhor Filme, Realizador e Argumento Adaptado. O filme, que seria à partida o filme “pequeno” que furaria pela competição dos grandes estúdios em busca de aclamação e prémios, tornou-se de um momento para o outro num gigante, arrecadando praticamente todos os prémios para os quais tinha sido nomeado, levantando ainda mais as expectativas de qualquer comum mortal que estivesse atento à corrida.
É um filme que funcionaria melhor num nicho de mercado, como fenómeno de culto, mesmo com os problemas que irei enumerar mais à frente. O estatuto de favorito não lhe fica nada bem, torna as suas falhas ainda menos aceitáveis. Pelo menos foi a impressão com que fiquei.
Parte conto de fantasia, parte filme com ambições em retratar uma cultura extremamente diferente da que estamos habituados a ver no cinema ocidental, o filme fica-se por uma “caldeirada” conveniente entre estas duas parcelas. Conveniente pois torna acima de tudo os aspectos inverosímeis da narrativa facilmente desculpáveis.
A história centra-se em Jamal, um jovem indiano que se encontra a uma questão de ganhar o prémio máximo de 20 milhões de rupias, mas é preso por suspeitas de fraude. Para comprovar que sabia de facto as respostas, o rapaz vai narrando como foi ficando a saber cada uma delas através de acontecimentos do passado.
Estes acontecimentos são inseridos em flashbacks bem arranjadinhos e lineares. Como se não bastasse saber as respostas, é tudo temporalmente a bater certo com a ordem temporal das perguntas do concurso. Mas claro, é o destino que está aqui em jogo no mundo pseudo-real de “Slumdog”… será que o destino também explica a caracterização simplista das suas personagens?
A realização de Boyle e da ignorada Loveleen Tandan vai tentando dinamizar a repetição narrativa, mas sem sucesso para este espectador. Salva-se um ou outro rasgo criativo na primeira hora e meia. O melhor do filme fica mesmo para a última meia hora, já toda ela em tempo actual, aí sim com alguma tensão a entrar e a bater a convencionalidade dos procedimentos.
O elenco, composto quase unicamente por jovens actores, todos eles desconhecidos, é minimamente competente.
Mas a maior nota de destaque, e o que mais alma e ambiente consegue imprimir à película, mais que qualquer truque de câmara, luz ou palavra dita, acaba por ser a música de A.R. Rahman, com ajuda da agora estrela internacional M.I.A..
Em tempos de crise, é fácil perceber porque é que “Slumdog Millionaire” se torna um filme tão fácil de abraçar e de premiar, perdoando as falhas. Pessoalmente fiquei indiferente a tanta pompa e aparato no final, por muito que o número musical de genérico final à Bollywood me tivesse quase convertido.
5/10
André Gonçalves

