É uma pena não haver “rehab” para famílias inteiras…
“Rachel Getting Married” é mais um produto cinematográfico americano que aborda uma das temáticas mais debatidas no cinema nos últimos anos. Aliás, se pensarmos bem, a grande explosão que o dito cinema indie teve nos últimos anos, girava quase sempre em torno de famílias disfuncionais.
Estes filmes, sem grandes meios, normalmente aprimoravam-se no argumento e no trabalho dos actores – na sua dimensão dramática e profundidade.
“Rachel Getting Married” está completamente dentro destas linhas.
O filme começa com Kym (Anne Hathaway) a sair de um centro de reabilitação de dependências. Quem a vai buscar é o pai, que lhe comunica o caos reinante que circunda a sua casa devido aos preparativos do casamento da irmã.
A partir daqui somos envolvidos em preparativos festivos que a espaços provocam choques emocionais entre as personagens. Aos poucos vamos descobrindo como era a vida de Kym antes da reabilitação: as mentiras, as marcas que estas deixaram nos seus familiares e principalmente os contornos de um evento trágico que mudou a vida de toda a família.
Pelo meio vamos assistindo, quase num estilo documental, à preparação de um casamento moderno norte-americano: um casal interracial, uma festa multi-étnica, com mais estilos misturados que muitos dos nossos festivais de musica de Verão, e um jogo de cores e emoções muito cruas, até nos mais pequenos detalhes.
E é aqui, conjuntamente com a dimensão dramática e profundidade exposta pelos seus actores, que o filme ganha alguma unicidade. Até podemos mesmo dizer que tudo começa de uma maneira muito banal, ganhando pouco a pouco uma identidade própria que parcialmente a demarca dos demais.
Para isso muito contribui a prestação de Hathaway, a única capaz de fazer frente ao mais que provável Oscar que Winslet vai ganhar. Mas curiosamente, para mim, esta não foi a actriz que mais me apaixonou na película. Por mais força que a sua personagem e interpretação tenham, a sua irmã Rachel (Rosemarie DeWitt), sempre que aparece em cena, rouba-lhe o protagonismo. Destaque também para o papel interpretado pelo pai das duas (Bill Irwin)
De qualquer maneira não podemos vangloriar muito este trabalho escrito por Jenny Lumet (filha de Sidney Lumet). Acima de tudo, e tal como esta família, este é um filme disfuncional, desritmado e de um pseudo-realismo pouco entusiasmante.
Por vezes, a forma como está filmado e o seu conteúdo, fez-me lembrar “Festen”, o primeiro trabalho do Dogme 95 realizado por Thomas Vintemberg. Mas as semelhanças ficam por aí. “Festen” era muito mais acutilante em toda a linha. A este falta força. Falta personalidade. Falta aquilo que outros filmes de Johnatan Demme detinham: carisma. Os poucos momentos em que o filme teve isso tudo não são suficientes para termos uma obra compacta e forte para triunfar além dos actores…
5/10

