
“Rachel Getting Married”, o mais recente filme de Jonathan Demme (realizador do icónico “The Silence of the Lambs”), é um filme que percebe completamente a dinâmica familiar que se gera em torno de um destes eventos.
O evento em questão é o casamento de Rachel (Rosemarie DeWitt) e Sidney (Tunde Abedimpe), um casamento multicultural e inter-racial que foge aos padrões convencionais do que estamos habituados a ver dentro do género. Mas apesar do aparato em tal celebração, o foco aqui vai todo para Kym (Anne Hathaway), a irmã de Rachel, uma ex-viciada saída de uma clínica de reabilitação ainda embrenhada num sentimento de culpa tremendo devido a um passado negro. Ela é a verdadeira protagonista desta saga familiar de um fim-de-semana diferente de todos os outros, que poderá ou não definir novos rumos para os envolvidos.
Aliando representações formidáveis, uma escrita simultaneamente apurada e espontânea com algumas reviravoltas na manga por revelar (estreia de Jenny Lumet – filha de Sidney Lumet – como autora), e uma fluência incrivelmente próxima da vida real, “Rachel Getting Married” é o pacote perfeito para quem gosta dos seus dramas familiares fora do formato telenovelesco a que as televisões tanto habituaram os seus espectadores.
Aqui as cenas prosseguem de forma livre, quando normalmente seriam cortadas a meio escolhendo-se o “melhor” momento. É uma decisão genial por parte de Demme e companhia e que nos faz realmente entrar dentro daquele casamento tão curioso, como convidados.
O melhor exemplo desta abordagem estará provavelmente em toda a cena do jantar de ensaio, com os vários discursos aos noivos, que culminam no momento em que Kym decide finalmente falar. Num típico filme de Hollywood, o realizador e argumentista incluiriam no máximo dois ou três discursos antes do grande momento. Em “Rachel Getting Married”, por muito que isso possa irritar alguns espectadores, todos parecem ter uma palavra a dizer e na altura em que Kym decide fazer ela própria o seu discurso imprevisto, a tensão já se encontra bastante alta.
Anne Hathaway, numa performance com força suficiente para definir uma carreira, capta toda esta necessidade de atenção que deriva de remorsos interiores e é particularmente devastadora em sequências de exposição dramática complicada. Hathaway já tinha tido um ou outro momento que sugeria ali grandeza e vontade para evoluir – nomeadamente em “Brokeback Mountain” e na sua cena final ao telefone, mas é aqui que finalmente consegue soltar-se do rótulo da rapariguinha do “The Princess Diaries'”.
Também merecedores de nomeações, prémios e outras honrarias estão os restantes membros de um elenco adorável na sua diversidade e união. A até agora desconhecida Rosemarie DeWitt causa finalmente impacto no grande ecrã no papel titular, quase sempre a reagir às investidas de Hathaway, carismática mas com uma personagem também ela em tons de cinzento.
Debra Winger, cuja carreira tem tido tantos altos e baixos desde os tempos de “An Officer And a Gentleman”, é igualmente poderosa num papel curto mas que hipnotiza e deixa uma sensação perturbadora mesmo após o final do filme. Uma mulher e uma mãe que se tornou quase num fantasma, uma figura distante que vive a fugir de um passado terrível embora se veja obrigada a cumpris o seu papel social. No papel manhoso de “pai maternal” que quer apenas conquistar as suas filhas e esquecer o passado, Bill Irwin também vai bastante bem.
Demme e o director de fotografia Declan Quinn tentaram fazer um filme que parecesse “o mais belo filme caseiro alguma vez feito”, gaças a uma técnica que parece inspirada pelo movimento Dogma iniciado na década passada pelos cineastas Thomas Vinterberg e Lars von Trier. Com uma estrutura assumidamente naturalista, desde o cenário às performances dos actores e ao talento da equipa na escolha de cores, planos e da música, perfeitamente integrada nas cenas, o objectivo foi plenamente cumprido.
“Rachel Getting Married”, por quaisquer pequenas imperfeições – deliciosamente adequadas a este espírito de captar uma realidade, é um filme magnífico e incrivelmente apaixonante.
10/10
Crítica Por Jorge Pereira (5/10)

