
Que e como escrever sobre “Slumdog Millionaire”? A) Ponderar calmamente e analisar o que se assistiu como uma mera equação de princípios bem concretos (cinematografia, realização, argumento, etc…? B) Seguir cegamente o tom emocional, desprimorando todos os aspectos técnicos? C) Equilibrar as duas forças de modo bem racional? D) Deixar-me levar nesta fantasia realista bizarramente plausível?
Talvez no fim deste texto saiba a resposta…
O certo é que este trabalho de Danny Boyle, que para mim é conhecido por filmes de culto como “Trainspotting” e “28 Days Later”, e por valentes fiascos narrativos como “The Beach” e “Sunshine”, fez aqui um dos seus projectos mais humanos, carismáticos e inacreditavelmente emocionantes.
E tudo isto numa narrativa simples e já vista. Batida e rebatida. Pouco surpreendente e mesmo previsível. Em suma: um tema antigo com uma abordagem contemporânea, em torno de conceitos que vão desde Charles Dickens ao cinema de Bollywood; globalização e poder da TV; o mundo de hoje com os problemas de ontem; o realismo fantasioso que nos faz ambicionar mais.
E para construir isso, Boyle socorre-se da história de Jamal, um jovem muçulmano na Índia que perde a família muito cedo e que se vê apenas com o irmão e uma amiga/paixão, que o vai acompanhar para sempre.
Mas o filme não começa aqui. Começa no presente. E neste instante Jamal está prestes a tornar-se milionário. Para isso basta responder a uma pergunta e fazer acreditar toda a gente que um “servidor de chá” poderia chegar onde chegou. E tudo por amor, lá está. Outro dos assuntos batidos e rebatidos no cinema, literatura, musica e outras artes.
Como chegou Jamal até ali? É o destino? Será que este quis que durante a sua vida existissem vários episódios que remetessem, de uma maneira ou de outra, para a resposta às questões.
É nessa viagem entre o passado e o presente que Boyle nos apaixona. A forma como trata as suas personagens, sem nunca porém lhes dar uma profundidade tremenda, é fascinante. O modo como é apresentada a Índia das castas, das diferentes religiões, das mil e uma cores, das milhares de barracas, dos empreendimentos de luxo, das prostitutas, dos mendigos e dos aproveitadores é excepcional.
Para isso, Boyle usa todos os artefactos que tem e expreme-os até ao tutano. A cinematografia, a montagem e a banda-sonora são fulminantes. A direcção de actores dá o suficiente toque realista quando pretende, e fantasista quando entende. Não há aspecto técnico que tenha uma real fraqueza em relação ao outro. Talvez as interpretações possam ser as mais facilmente atacáveis. Mas aqui, qualquer “overacting” seria a morte do artista e o tom quase “real” dos actores ainda dá mais força a um filme já por si muito forte em termos de argumento.
Assim, e depois de ganhar tudo o que tinha para ganhar – ainda faltam os oscars, mas quase de certeza que os vencerá, só falta mesmo a este filme transformar água em vinho, como brincou um jornalista do site Cinema Blend.
É que “Slumdog Millionaire” é mesmo fascinante. E deixa no ar um optimismo que quando saímos dele até nos esquecemos que assistimos a miséria extrema, órfãos, crime organizado, escravidão, prostituição, tortura e muito mais. Talvez seja por isso que o filme tem ganho tudo o que há para ganhar. Nos tempos que correm, e no momento de crise que vivemos, “Slumdog” é o que precisamos para acreditar que amanhã tudo pode melhora. O mundo precisava de Jamal.
A não perder…
9/10
Jorge Pereira

