“Nuit de Chien” por Joana Fialho

(Fotos: Divulgação)

Uma noite maldita numa cidade sitiada, Santa Maria. Ossorio (Pascal Greggory) chega depois de quatro anos para levar consigo a mulher com quem vivia. Mas o amor da sua vida está desaparecido e a cidade está tomada pelo caos, um novo ditador causa o terror e as facções resistentes organizam uma insurreição.

A fuga torna-se cada vez mais elusiva à medida que a noite avança, Ossorio aposta as suas forças em conseguir chegar aos barcos que são a única saída daquela cidade.

“Nuit de Chien” tem uma estética de traços quase góticos, as cenas de cruel violência em que o sangue de um vermelho vivo empapa as roupas, parecem saídas de obras de pintores Renascentistas.

Werner Schroeter filmou a mítica cidade de Santa Maria entre Lisboa e o Porto, aqui transfiguradas num local dos inícios do século passado. A rodagem em Lisboa explica também a presença de actores nacionais como Nuno Lopes e Patrícia Bull. Dá gosto ver Lisboa na tela de cinema: a estação de Santa Apolónia, os táxis pretos de tejadilho verde…

O universo visual de “Nuit de Chien” está carregado de simbolismos, tão carregado que muitos deles não chegam a comunicar a sua intenção. Um exemplo disso é o homem que passeia pelas ruas com balões coloridos, ou a personagem de Isabele com o seu lindo vestido vermelho exibindo um seio, qual símbolo da Liberdade da revolução francesa.

Os ecos da guerra civil espanhola, o espectro do fascismo, são elementos que permaneceram do romance do uruguaio Juan Carlos Onetti no qual se baseia o argumento. Nesta noite escura de trevas pesadas, Schroeter não deixa nenhum espaço para a esperança. Mas não é o niilismo que desilude na obra do realizador de “Malina”, é a confusão do argumento que não consegue entusiasmar o espectador. Talvez mesmo por isso tenha “Nuit de Chien” sido vaiado no festival de Veneza.

4/10

Joana Fialho

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