“Changeling” por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Clint Eastwood tem olho para filmar – mais concretamente o género melodramático – de um modo mais “clássico” e demonstra-o novamente em “Changeling”, um drama baseado em factos verídicos, ocorridos em 1928, que conta a história de Christine Collins, a mãe solteira que um dia, ao chegar do trabalho, descobre que o seu filho Walter desapareceu. Apesar do contacto rápido com a polícia, só passados meses esta lhe revela um resultado: só que o rapaz que encontram é diferente do que saiu de casa naquele dia…

Realizado com óbvio carinho por Eastwood, “Changeling” é, no entanto, um filme que se mostra também demasiado enamorado de si mesmo, facto que pode irritar alguns, e que certamente servirá como acha para uma fogueira que já vem de outros filmes. É que, apesar da excelência técnica habitual, falta alguma coesão narrativa e uma caracterização menos redutora de alguns secundários sem os separar tão obviamente em “bons” ou “maus”.

O brilhante “Million Dollar Baby” já tinha sido atacado neste último aspecto, mas na altura o filme tinha impacto emocional de sobra para nos deixar K.O. – passe a piada fácil – e foi mais fácil ignorar qualquer pequena falha. De qualquer modo, a estrutura em três actos volta a estar presente e é ainda mais notória neste “Changeling”.

A ancorar isto tudo está Angelina Jolie. Com os seus belos lábios pintados, olhos marejados de lágrimas e a energia necessária para dar forma a esta mulher sofisticada dos anos 20, que nunca deixa de acreditar na possibilidade do seu filho aparecer um dia. Enquanto repete uma dúzia de vezes – entre outras variantes – a frase “He’s not my son!”  a actriz consegue aqui mais uma performance adulta, quase perfeita de um ponto de vista académico. Uma vez que o público já a viu chorar anteriormente e já a viu internada numa instituição psiquiátrica, é nos momentos mais calmos da história que talvez acabe por surpreender mais, quando combina de forma impressionante a amargura de anos perdidos sem notícias do filho, com uma esperança desarmante no futuro. Será até justa a segunda nomeação ao Oscar que tanto ambiciona.

O restante elenco cumpre as suas funções na maior parte dos casos. Jason Butler Harner e o jovem Eddie Alderson são pequenas grandes revelações em papéis curtos mas cruciais para todo o enredo, e a recentemente nomeada para um Oscar, Amy Ryan, tem igualmente um papel curto mas convincente enquanto companheira de hospício da personagem de Jolie. John Malkovich é meramente adequado enquanto Reverendo Gustav Briegleb. Encarnando um chefe da polícia corrupta de Los Angeles, Jeffrey Donovan faz-nos odiar a sua personagem, é certo, mas não há nele qualquer traço de ambiguidade humana e não consegue dar qualquer volta ao estereótipo de “polícia mau e corrupto”. Culpa dividida a meias com o argumento, só que o actor parece nem sequer se esforçar por contornar a figura mais unidimensional da película.

“Changeling” é um filme extremamente bem feito, com excelentes valores de produção e excelente técnica, ancorado por uma performance central merecedora de elogios.  Uma obra que peca apenas por não inovar muito na sua estrutura e concentrar toda a (pouca) ambiguidade constante do argumento apenas na secção final, fazendo com que os retratos de alguns dos seus personagens se tornem demasiado finos dentro da redoma que Eastwood instalou aqui. Pequenas falhas aparte, merece sem dúvida uma ida ao cinema.

 

7/10

André Gonçalves

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