“Vicky Cristina Barcelona” por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

 

Há quem defenda que Woody Allen nunca fez um filme “mau”. Não sendo fã fervoroso, consigo perceber essa perspectiva e até partilhar dela – mesmo nos seus momentos mais fracos, que ocorreram sobretudo nos últimos anos, os filmes de Allen tinham sempre algum factor de redenção… uma ou duas sequências que demonstravam o génio do realizador/argumentista e que elevavam o filme para um patamar positivo.

Em 2005, Allen decidiu finalmente sair do seu habitat nova-iorquino e viajar para Londres onde fez um dos filmes mais brilhantes em toda a sua carreira: “Match Point”. Por lá permaneceu, mas o sucesso entre a crítica e o público já não foi o mesmo com os filmes “Scoop” e “Cassandra’s Dream”.

Ainda na Europa, eis que decide filmar a história de duas raparigas, Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), que decidem ir passar férias a Barcelona e lá encontram o amor e a possibilidade de reavaliar a vida que levavam. Parece mais um argumento de road movie igual a tantos outros, mas a verdade é que “Vicky Cristina Barcelona”, com o título formado como se tratasse de uma legenda de um postal ou uma fotografia, mostra mais um sinal de rejuvenescimento da carreira de Woody Allen e torna-se até num dos filmes mais agradáveis e sensuais que já fez.

Apesar da forte amizade que as une, a verdade é que Vicky e Cristina não poderiam ser mais diferentes. Cristina age mais por instinto, é mais solta, pensa menos nas consequências. Vicky racionaliza mais aquilo que lhe acontece (será o alter ego de Woody Allen aqui) e é quase sempre a voz da razão. Por isso, quando numa das cenas mais memoráveis do ano o charmoso Juan Antonio (Javier Bardem) as convida inesperadamente, a meio de um jantar, a passarem uns dias em Oviedo com ele, é natural que seja Cristina quem fica menos chocada e até mais explicitamente curiosa com aquele homem misterioso e convencido.

Um narrador anónimo apresenta-nos constantemente a situação e as personagens, como se subitamente estivéssemos perante a fiel adaptação de um romance. Embora este facto possa incomodar ou até irritar alguns, a verdade é que funciona no contexto do filme e torna-o até mais degustável. A acompanhar o narrador, temos um tema musical de genérico deliciosamente viciante.

Os diálogos estão à altura do melhor que Allen já escreveu no passado e o quarteto principal de actores não os desperdiça, encarnando estas personagens caricatas com a convicção necessária para as tornar reais.

Javier Bardem e Scarlett Johansson são apropriadamente sexy para os respectivos papéis, mas a grande revelação do elenco é a até então desconhecida Rebecca Hall (merecida nomeação ao Globo de Ouro), subtil e natural num papel que inicialmente representa a voz da razão mas posteriormente se revela mais como o olhar do espectador comum. E depois há Penelope Cruz, com a sua Maria Elena (a “ex” de Juan Antonio) a surgir a meio, bela mas claramente magoada, a falar ora inglês ora espanhol, em tons psicóticos que poderão esconder uma outra faceta. Não será surpresa nenhuma se for desta vez que a actriz espanhola sobe ao palco do Kodak Theatre para receber o Oscar de Melhor Actriz Secundária.

A grande força de muitos dos filmes de Allen, reside em serem ligeiros mas complexos, ou seja, atrás da aparente ligeireza escondem sempre grandes verdades e temas acutilantes como o amor, a traição, a sexualidade e o escape à rotina da vida e às imposições sociais. “Vicky Cristina Barcelona” será talvez, a partir de agora, o filme mais exemplar desta noção de “falsa ligeireza”, embarcando em todos os temas descritos atrás e criando um todo tão irresistível como inteligente. Aos 73 anos e após um sem-número de filmes, Woody Allen dificilmente poderia estar mais recomendável.

 

9/10    

André Gonçalves

 

 

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