
No ano do centenário de Manoel de Oliveira, muito se tem falado do futuro do cinema português e dos novos cineastas emergentes. Nomes como os de Marco Martins, João Pedro Rodrigues e Teresa Villaverde são sempre bastante falados quando se refere esta nova vaga.
Raquel Freire, que teve alguma projecção em 2001 com o filme “Rasganço”, deverá ter pretensões de se juntar à lista, mas analisando apenas esta sua terceira longa-metragem e primeiro filme em sete anos, bem pode ir sonhando com maiores voos… afinal, o caminho a partir daqui só pode ser a subir.
Tendo a cidade do Porto como plano de fundo, cidade de nascimento de Freire, “Veneno Cura” começa com a morte de um bebé, e termina com o nascimento de dois (gémeos). Pelo meio, há uma casa nocturna, a “Imperatriz”, onde a luxúria e as fantasias sexuais podem ser realizadas sem quaisquer pudores. Entre as pessoas que se encontram habitualmente por lá, encontramos Francisco, um fotógrafo, e Rubia, uma das bailarinas habituais da casa. Entre eles nasce uma relação sexual, embora Rubia acabe por se apaixonar pelo jovem fotógrafo. Entretanto, temos o advogado António Miguel que partilha uma ligação forte com “A Imperatriz” Rita (será um amante? O filme encarrega-se de desvendar o “mistério” lá mais para a frente… ) e se torna encarregado de defender Rosa, uma mulher acusada de ter morto o próprio filho, apaixonando-se (?) eventualmente por ela.
Se a sinopse acima lhe causou alguma confusão, o filme não fará muito mais sentido. Dotada de uma falta de nexo inexplicável, tão inexplicável como a divisão da película em “fragmentos”, a narrativa da autoria da própria realizadora não parece ter qualquer propósito sem ser mostrar corpos desnudados, como se esta fosse a única maneira que a realizadora arranjou de evidenciar uma verdade das personagens que retrata. Mas tendo em conta o que se passa quando as personagens abrem a boca, a nudez dos actores torna-se uma benção. Ao menos há algo para todos olharem, e será nesse aspecto que o filme cumpre mais. “Veneno Cura” funcionaria muito melhor enquanto filme mudo. Os diálogos chegam ao ponto do risível e raramente são credíveis apesar dos melhores esforços de alguns actores em desempenhá-los com convicção. Há linhas que nem o melhor actor do mundo pode salvar.
Salva-se um ou outro plano e um ou outro actor que merecia melhor filme e melhores linhas de diálogo – não será por acaso que a actriz Sandra Rosado se safa melhor, sendo ela do elenco principal a que tem a performance com menos diálogos, limitando-se mais a expressões faciais e corporais e simulações de ataques. A evitar.
2/10
André Gonçalves

