“Amália: O Filme” por Carlos Lopes

(Fotos: Divulgação)

Chega às salas de cinema a primeira parada da Valentim de Carvalho Filmes, a mais recente grande produtora e distribuidora cinematográfica nacional.

As apostas recaíram neste biopic de Amália Rodrigues, a grande diva do fado portuguesa, o primeiro de muitos projectos que a produtora se propôs a desenvolver para o grande público.

Amália Rodrigues ainda está bem presente na memória dos portugueses e a expectativa era grande, tal como era grande o risco de se falhar. No seu contacto com o público podemos dar os parabéns a esta obra, pois será um sucesso nacional quase garantido. Talvez seja pedir muito ver os pontos fulcrais da vida de Amália Rodrigues reduzidos a 127 minutos (mais alargados na versão mini série a ser transmitida posteriormente pela RTP), mas arriscou-se.

A obsessão com a morte foi o tema fulcral escolhido pelos argumentistas Pedro Marta Santos e João Tordo para caracterizar a fadista, de forma bastante bem conseguida. Sandra Barata Belo foi a actriz escolhida para interpretar o papel principal, e arrisco dizer que não poderia ter sido feita uma melhor escolha. Dos pontos positivos a apontar ao filme, Belo é um deles e merece o aplauso que tantas vezes foi ouvido para a própria diva. A actriz tem um desempenho bastante bom e consegue transmitir o “eu” interior de Amália, que tanto a atormentava e que era reflectido nas suas canções. Estas estão também bastante bem inseridas no contexto do desenrolar da narrativa, acompanhando os pontos que marcaram a sua vida. No entanto, o filme falha principalmente por não estar apoiado numa estrutura que acompanhe a bem enraizada personagem de Amália.

Do elenco é de realçar as participações de Carla Chambel, Ricardo Pereira e António Pedro Cerdeira, actores no auge das suas carreiras e capazes de demonstrar, com estes papéis secundários, o seu talento inato.Por outro lado Ricardo Carriço desempenha um papel, o de brasileiro César Seabra, que não lhe é satisfatório. No geral o leque de actores tem um bom desempenho, mas muitas vezes o desenrolar da acção dá-se de forma tão rápida que alguns acontecimentos parecem muito forçados; muitas vezes o espectador pode perder-se na relação entre Amália e a irmã Celeste, que no filme ganha um contraste com vários altos e baixos.

O filme surpreende com algumas características que não são muito comuns na nossa cinematografia, como a montagem. Dividida por acções paralelas, por vezes a montagem salta para a frente e para trás no tempo. O início do filme é quando esta técnica é melhor conseguida, acabando por se tornar repetitiva e por vezes até desnecessária. A mistura sonora do filme é um dos pontos fracos. Os filmes portugueses têm primado por uma imagem e som cada vez melhores mas em “Amália”, nota-se por demasiadas vezes a dobragem, e muitos dos pequenos sons encontram-se a um nível excessivo.

Os acontecimentos no filme passam quase sem sabor e talvez por isso não consigamos viver as personagens no seu todo No entanto, é de valorizar a protagonista e a sua caracterização da famosa fadista, e a tentativa desta produção de nos trazer um filme minimamente equilibrado, preparado para o grande público e que não obedece a todos os requisitos que temos encontrado nas grandes produções nacionais.

Para quem quer descobrir Amália Rodrigues por detrás da sua imagem de palco.

6/10

Carlos Lopes

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