
Hunger”, apesar do belo trabalho de realização por detrás, não é um filme bonito de se ver. Será provavelmente o filme mais pesado do último ano.
Com a disposição correcta, este filme de estreia do britânico Steve Mcqueen torna-se facilmente num objecto de culto a merecer os elogios e os prémios que tem recebido ultimamente, nomeadamente para o seu actor principal, Michael Fassbender.
Inspirado em factos verídicos, “Hunger” relata a vida dos prisioneiros na prisão de Maze em Belfast no início da década de 1980. Mas estes não são prisioneiros comuns. São membros do IRA (Irish Republican Army), e vivem sob as piores condições imagináveis, ao ponto da sua revolta ser expressada em pintar as paredes com excrementos, dando uma imagem ainda pior às celas.
Apesar de nos mostrar os dois lados da prisão, passando a mensagem de que tanto guardas como prisioneiros se encontram presos, quer literalmente quer metaforicamente, o filme não é propriamente imparcial (ou subtil) na sua abordagem. Dificilmente poderia ser mais imparcial também, diga-se em sua defesa. E tirando excertos de discursos da ex-primeira ministra Margaret Thatcher, e a leitura de datas em documentos para os mais atentos, “Hunger” parte do princípio que a história já é sabida, e portanto nenhum enquadramento histórico é feito se não for estritamente necessário. No entanto, McQueen é um realizador a acompanhar, conseguindo produzir tensão tanto nas sequências de violência e tortura, como em planos prolongados que nos assaltam a memória dias após o visionamento.
Para além da forte carga política causadora de alguma polémica, e de um trabalho de realização eficaz em demonstrar o negrume destas vidas (tanto dos prisioneiros como dos próprios guardas prisionais), o filme será lembrado acima de tudo pela performance arriscada de Michael Fassbender. Quando até à altura acompanhávamos outros prisioneiros, o filme finalmente revela-nos o seu verdadeiro protagonista: Bobby Sands, que planeia liderar uma greve de fome como meio de protesto contra as más condições com que os prisioneiros do IRA são tratados. Fassbender tem uma performance com um empenho assustador, sobretudo a nível físico (numa transformação a fazer lembrar a certa altura a de Christian Bale para o filme “The Machinist”), ao mesmo tempo que confere o toque certo de humanidade e mostra um homem verdadeiramente convicto dos valores em que acredita e pelos quais se encontra aprisionado. Isto tudo presente naquela que deverá ser a sequência mais emblemática do filme, composta por um único take de cerca de 17 minutos, onde Sands debate com um padre o derradeiro propósito de uma greve de fome.
Em suma, “Hunger” é um filme de difícil digestão, mas absolutamente recomendável.
7/10
André Gonçalves

