“Entre Les Murs” por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Após alguns anos de decisões menos acertadas com a escolha da Palma de Ouro, o júri anual do Festival de Cannes consegue, pelo segundo ano consecutivo premiar, um filme merecedor de tal estatuto.

Depois do esmagador “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, chega-nos agora “Entre les Murs” de Laurent Canet, justíssima Palma de Ouro de 2008, uma produção francesa que à partida poderia passar despercebida no mercado, não fosse o aparato que tal prémio gerou. Ainda bem que assim foi.

E o que dizer de “Entre les Murs” que os seus inúmeros apoiantes não tenham já dito?

Bem, resta de facto reforçar o carácter fortemente realista. Não foi por acaso que o filme passou numa projecção na recente edição do Doclisboa.

É de facto esse tom incrivelmente naturalista e “real” que o filme transporta durante mais de duas horas, nunca entediante e que imediatamente se sobrepõe não só ao cinema norte-americano tão fortemente atacado, como também ao outro cinema, o que muitas vezes se esconde por detrás do rótulo de “realismo social” (lembro-me facilmente de uma Palma de Ouro do passado que se encaixaria facilmente nesta categoria…). Não, “Entre les Murs”, ou “A Turma” em português, é o autêntico filme social, realista, de serviço público, o que lhe queiram chamar, livre de manipulações fáceis ou telenovelismos e dotado de uma subtileza e savoire faire arrasadores, com uma fluência na montagem que poucos filmes arriscam hoje em dia e ainda menos conseguem com tal sucesso.

Para o realismo contribuirá certamente a presença do professor e autor do livro no qual o filme se inspirou numa versão de si mesmo, por assim dizer. François Bégaudeau escreveu um argumento fantástico (e um livro igualmente fantástico presumo), daqueles que nos transportam com a ajuda da realização de Canet para dentro da sala de aula e nos faz sentir também como alunos ou professores assistentes que se sentam numa carteira ali ao lado e não meros espectadores. Além disso, Bégadeau traz-nos também um retrato desconcertante de um docente que se vê no meio de um jogo de poder com os jovens que tenta ensinar. Igualmente surpreendentes são os alunos daquela turma, quase todos com direito a um retrato a três dimensões, quase todos com o seu lugar de destaque na película.

Resta então esperar que num futuro não muito distante, um filme como este possa ser mostrado directamente em várias escolas do nosso país, que não serão assim tão diferentes da realidade francesa… “Entre les Murs” é um triunfo a todos os níveis, que nos faz retomar a esperança na possibilidade de termos cinema dirigido ao grande público com sensibilidade artística, com… inteligência! Um dos filmes fulcrais do ano.

 

10/10

 

André Gonçalves

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