Adaptação do romance de José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, o filme, é uma tentativa frustrada de captar a mensagem do livro em 120 minutos.
Numa metrópole, pessoas começam a ficar cegas. Pensando que se trata inicialmente de um vírus, as autoridades mandam os infectados para um antigo manicómio, de quarentena. É lá que os “novos cegos” se vão acomodar, entre camaratas desorganizadas e guerras de grupos. No meio de tantos cegos, uma pessoa (Julianne Moore), que vê e assiste impotente ao desaire do Ser Humano.
O livro é obra de grande magnitude, capaz de nos fazer questionar a nossa visão do mundo e dos seus habitantes. É uma obra que, a pouco e pouco, constrói a sua trama e nos apresenta personagens sempre com relevo e pluri-dimensionalidade. Ao ler, imagens inundam-nos a mente e conseguimos criar esse mundo de desespero onde Humanos, cada vez mais, se transformam em animais, caindo na miséria que eles próprios são incapazes de limpar.
Adaptar a obra para filme não parecia ser algo de impossível. Após alguns anos em que Saramago se recusou em vender os direitos, um Canadiano, Don Mckellar (argumentista e actor), conseguiu convencer o escritor a deixá-lo adaptar a obra. Para a realização foi chamado Fernando Meirelles que há muito tinha mostrado interesse em transformar o livro em imagens.
O resultado é polémico e percebe-se perfeitamente a divisão dos espectadores relativamente à obra. Se na Internet, não são raros os que gritam ao génio, à obra-prima, também não é difícil encontrar quem lamente ter visto o filme. Infelizmente, aproximo-me mais do segundo grupo (com a diferença que não lamento e não considero o filme como sendo uma obra a evitar) e, acredito que certas escolhas condicionaram o que poderia ter sido um objecto interessante e com maior densidade.
Primeiro, o argumento, objecto central desta adaptação teria ganho muito mais em ser realmente adaptado ao invés de transcrito. É impossível identificarmos-nos com qualquer personagem. Elas apenas estão lá mas sem existirem. Nem a personagem de Moore se destaca particularmente, ela que deveria sofrer mais do que os outros porque a sua visão é maldição em terra de cegos. Basicamente, a linearidade com que nos é apresentada a trama não convence e não permite criar uma verdadeira atmosfera de caos para além de dificultar a identificação com qualquer personagem.
Segundo, a realização e a parte técnica não convencem plenamente. Será que Meirelles tentou representar o caos através da sua realização para simular o mundo em que vivem os cegos? Entre a montagem por vezes simples e despachada ou, ao contrario, demasiada lenta, junta-se uma fotografia demasiado luminosa e sem textura, tornando aquele mundo demasiado limpo e remetendo directamente para o cliché dos filmes catástrofe de zombies e afins. Os planos, por vezes, ainda conseguem alguma poesia mas tudo parece em vão e sem estrutura sólida para sustentar os vários elementos.
Finalmente, a música. É agradável mas tão completamente desenquadrada que, por vezes, consegue eliminar por o pouquinho de emoção que se conseguia extrair da cena.
Outro elemento que existe sem existir é o elenco. Apesar de recheado dm actores que já mostraram talento, limita-se a vaguear por um filme que à partida já sofria de um argumento demasiado condensado e linear.
Conclusão: Blindness não é o reflexo do livro do qual é adaptado. Visto assim, o filme é aborrecido e sem verdadeiro conteúdo. As questões Humanas são descritas e não vividas.
Falta um verdadeiro argumento, consistente, que esta transcrição do livro não tem. Por vezes, algo escapa (como os impressionantes exteriores, verdadeiro trabalho de direcção de arte. Estamos a falar de São Paulo ou de outra metrópole, esvaziada e suja para o filme) ou ainda a vontade de mostrar o chocante mas que, geralmente, se fica pela sugestão. Alias, é mesmo isso que o filme é, uma sugestão de poder ter sido algo mais. Mais profundo, humano e emocional ao invés de ser simplesmente a história de uma sociedade que de repente deixa de ver e é posta de quarentena.
Para os que não leram o livro, o filme pode também ser uma boa ocasião para verem o que realmente não viram no cinema. Uma boa história, coerente, com personagens e que levanta questões reais.
4/10
André Reis

