“Savage Grace” por Lourenço Henriques

(Fotos: Divulgação)

Baseado na história verdadeira do homicídio de Barbara Baekeland, que nos anos setenta do século passado abalou ambos os lados do Atlântico Anglo-Saxónico, Savage Grace está munido de uma carga sexual negativa, mostrando-nos, com alguns pormenores chocantes, os desequilíbrios muitas vezes vividos por detrás da aparência luminosa do mundo socialite.

Herdeiro de uma fortuna construída à volta da invenção da baquelite, Brooks Baekeland é uma espécie de diletante, que junto da família pouco mais tem do que o seu lugar sempre vago. Por outro lado, Barbara, a mulher, mais dedicada aos afazeres da alta sociedade do que à marcha dos acontecimentos caseiros, acaba ainda assim por ser a grande referência da vida de Tony, o filho de ambos.

Talvez pela constante ausência do marido, ora física, ora emocional, esta Sra. Baekeland, interpretada por Julianne Moore, tem um fraquinho por encontros sexuais furtivos, muitas vezes com parceiros desconhecidos, quem sabe numa perene busca de atenção. O resultado é um casamento de fachada, em que ela lucra porque o marido é rico, ele lucra porque a mulher é bonita e o filho não lucra nem de um nem de outro.

Os efeitos traumáticos de toda a teia emocional que circunscreve o crescimento de Tony, produzem um indivíduo perturbado, pleno de dúvidas e questões. Com a mãe partilha as sinuosidades do Complexo de Édipo, pelo que, com o pai mantém uma relação fria e distante, ainda que não de ódio. Ao longo do filme assistimos à forma como a passagem dos anos e uma vida fútil, mas dramática, afastam e aproximam os Baekeland, levando-os por fim ao inevitável naufrágio.

O realizador, Tom Kalin, seis vezes premiado pelo seu trabalho de estreia, Swoon, de 1992, propõe-nos uma abordagem linear, narrada por Tony, já na idade adulta. No centro de grande parte da trama, coloca a homossexualidade desse mesmo personagem, como aliás tem sido apanágio da sua não muito extensa obra.

A apontar, como aspecto negativo, talvez algum recato na audácia. A opção por um “jogo seguro” cria algumas dificuldades de ligação entre o público e o conteúdo dramático das personagens.

Ao nível fotográfico, a fita apresenta-se com uma estética tipicamente europeia, com apenas alguns problemas de foco, pouco frequentes, mas muito evidentes, a merecerem nota negativa. Os tons pouco garridos e uma certa crueza na imagem são sintomas que denunciam uma produção, que apesar de falada quase inteiramente em inglês, é maioritariamente conduzida por espanhóis e franceses. Prova clara de uma Espanha que cada vez mais se vem afirmando como potência do cinema mundial.

Como ponto mais alto deste Savage Grace, não será injusto destacar o equilíbrio do elenco, coroado por uma construção notável de Julianne Moore, no papel de Barbara Baekeland, que apesar de estar claramente em terrenos favoráveis, ainda assim nos brinda com momentos de categoria inegável. Grande nível demonstrou também o basco Unax Ugalde, que, no papel de Jake, rouba muita da atenção do espectador, nas cenas que interpreta.

Embora não sendo já uma revelação, Barney Clarke, que em 2005 foi Oliver Twist, concebe uma versão de Tony Baekeland, em criança, pincelada de subtis maneirismos efeminados, que, se não forem o natural jeito do actor, revelam muito talento. Na versão mais madura de Tony, Eddie Redmayne, que anteriormente participou, por exemplo, em Elizabeth – The Golden Age, oferece-nos uma interpretação densa e muito coerente, que, se não anuncia, confirma um enorme potencial.

Ainda a apontar, as prestações de Stephen Dillane, como Brooks Baekeland, e de Hugh Dancy, como Sam (uma espécie de treinador de assuntos do social, mantêm a elevadíssima classe de um elenco pouco comum.

Sem dúvida, para quem procura arte no cinema, para quem vê na sala de cinema um lugar de reflexão, é um filme que merece ser visto. Pungente, provocador, a espaços intenso, de um erotismo que fere, de uma brutalidade despida de preconceitos, com rasgos de beleza poética e com especial destaque para uma cena, chocante e profundamente metafórica, em que três amantes se encontram numa cama, Savage Grace, foge à mediania e deixa marcas no espectador, que se agudizam com o passar do tempo. Não sendo extraordinário e apesar de alguns defeitos visíveis, vale bem a hora e meia de atenção que nos pede. É muito bom.

 
 
7/10
 
Lourenço Henriques

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