Festa do Cinema Italiano: «A.C.A.B.: All Cops Are Bastards», por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)
{gallery}acab{/gallery} 
A obra vem juntar-se ao espanhol “Grupo 7” e ao brasileiro “Tropa de Elite” (o primeiro) à galeria dos filmes que abordam a temática de um pequeno grupo de polícias cujo drama pessoal é interligado com a sua função. De passagem, também tropeça na temática da adrenalina de “Estado de Sítio”, de Kathryn Bigelow, e na abordagem política e psicológica do israelita “O Polícia”. E o resultado, como em todos os filmes citados, é de forte impacte emocional.

O realizador Stefano Sollima vem da série “Romanzo Criminale”, verdadeiro culto em Itália e lançada em vários países e conta aqui a história de quatro policiais do corpo de intervenção de Roma, intercalando o seu quotidiano profissional – marcado por ações em manifestações de trabalhadores, operações de desalojamento, ataques a skinheads e, principalmente, batalhas campais contra os hooligans – com as suas vidas pessoais desfeitas.

A força maior deste “A.C.A.B.” é criar, através da exposição de todos os seus protagonistas a situações-limites quase o tempo todo, uma história explosiva e de tensão quase permanente, sendo impossível ficar indiferente às suas quase duas horas de pura adrenalina. E isto porque, mais do que simples ações de pancadaria, filmadas à maneira realista e bem pouco estilizada, Sollima tem a capacidade de gerir e explorar os conflitos sob uma perspetiva psicológica.

Ao mesmo tempo, o argumento audaciosamente envereda por um verdadeiro labirinto temático com questões nada fáceis de resolver: a ação violenta da polícia que enfrenta julgamentos e sanções políticas, o racismo e a xenofobia endémicas e o fascismo sempre à espreita na “irmandade” dos policiais, por diversas vezes a roçar os perigosos limites da justiça pelas próprias mãos – mas cujas implicações diversas o coloca a milhas dos filmes de vingança barata de Hollywood.

Ocorre que um filme com tal pano de fundo exige um posicionamento e aí, se como diz o ditado, “quem semeia vento colhe e tempestade”, Sollima vê-se em apuros ao tentar equilibrar a sua receita explosiva. Não é que ele não o tente – e termina por o fazer, ainda que desajeitadamente, através da ação de um dos polícias (o que parecia o mais raivoso e inconsciente, no início) perto do final do filme. 

Mas sabe a pouco. O filme não consegue atribuir uma dimensão maior, existencial ou moral, à ação das suas personagens – que vivem na família, no trabalho e ideologicamente um verdadeiro nó górdio o qual não conseguem desatar porque a sua única maneira de agir é através da reação emocional. “A.C.A.B.” retrata homens cujas vidas pessoais estão aos pedaços porque eles são incapazes de lidar com as situações quotidianas sem o uso da violência, muitas vezes não conseguindo sequer comunicar-se – desde o pai que não consegue evitar que o filho entre para a uma organização de skinheads, outro que não consegue lidar racionalmente com a ex-mulher e um terceiro às voltas com o despejo da mãe. 

Num caráter mais genérico, este retrato sobre o microcosmo da polícia de choque italiana termina por ser, ainda que sem o pretender claramente, uma útil porta de entrada para o entendimento da complexa e violenta Itália de Sílvio Berlusconi (independente dele estar ou não no poder) – na medida em que ele personifica, através do voto da arraia-miúda, o desespero surdo contra o sistema judicial descompassado com a realidade (todos no filme acabam por ser “vítimas” da justiça), contra os estrangeiros “ameaçadores” (presentes em várias cenas), esmagados por um sistema económico cada vez mais predatório (simbolizadas nas ações de despejo) e que se entregam nas mãos de um líder messiânico e truculento que personifica ação ou, como pretendiam os nazis, “o triunfo da vontade”. Aliás, a Europa já esteve mais longe de lá voltar…

O Melhor: a coragem e a capacidade cinematográfica de juntar uma boa dose de questões emocionais e filosóficas
O Pior: mais eficiente em mostrar do que se posicionar, o que o faz desajeitadamente
 
 
 Roni Nunes
 

Últimas