Em qualquer sociedade humana, qualquer diferença física se pode transformar numa forma da distinção social, baseando-se sobre ela relações de poder e exploração que, com o passar do tempo se tornam tão naturais que contrariá-las parece ir contra uma qualquer vontade superior. Em “Le Tableau”, Jean-François Laguionie cria uma sociedade que, baseada no estado de completude das pessoas que nela habitam, são divididas em três classes (os completos, os incompletos e os esboços), que são privilegiadas ou perseguidas de acordo com o que se pensa ser o reconhecimento do seu valor pelo próprio pintor. Roma, Lola e Pena, cada um pertencente a uma classe diferente e cada um por razões diferentes, vêem-se inesperadamente numa grande aventura para encontrar o pintor para tentar convencê-lo a concluir o quadro e assim terminar essa distinção.
Aproveitando o estarmos dentro de quadros, Jean-François Laguionie leva-nos através de vários estilos de vários pintores, Picasso, Chagall, Matisse, Modigliani e outros, numa festa de cores e linhas que é uma maravilha ver, enquanto que, ao mesmo tempo, faz uma crítica social e um ensaio existencialista que nos leva a questionar a forma como estamos na vida, dando-nos várias leituras possíveis.Tudo isto sem se tornar pesado ou demasiado complexo. Este é um filme que poderia ser visto em várias disciplinas em qualquer programa escolar e ainda assim não se esgotava. Mal posso esperar para poder apresentá-lo às crianças e adultos que me rodeiam, para que possam desfrutar do seu encanto e profundidade. Mais do que animação, isto é bom Cinema.
O Melhor: As imagens, os temas complexos abordados de forma acessível.
O Pior: O ritmo é um pouco desigual, podia melhorar com um novo corte.
| João Miranda |

