Monstra 2013:«Approved for Adoption», por João Miranda

(Fotos: Divulgação)
 
No final da guerra entre as duas Coreias, as ruas de Seul ficaram cheias de crianças: não só orfãos de pessoas que morreram, mas também abandonadas por causa da rigidez cultural quanto a mães solteiras. Milhares destas crianças foram então adotadas por pessoas no mundo ocidental, ficando espalhadas por vários países. Uma delas foi Jung, adoptado por uma família belga e que acabou por serializar a sua vida em banda desenhada com o título “Couleur de peau: Miel”. Depois do sucesso dos primeiros volumes, Jung resolveu adaptar a série ao cinema, resultando neste filme.

A comparação que se levanta imediatamente é com “Persépolis”, de Marjane Satrapi, outra série autobiográfica em banda desenhada que foi mais tarde adaptada ao cinema. Estamos a falar de filmes muito pessoais, que conseguem misturar o humor e a emoção com sucesso, mantendo-se fiéis à história e ao estilo usado e conseguindo retratar a dificuldade da integração social de etnias diferentes no mundo ocidental e a dificuldade de voltar aos países natais. No entanto, se Satrapi conta a história do ponto de vista da criança que cresce, com a realidade a ser interpretada por ela dentro do que conhece, Jung conta-o do ponto de vista do adulto que se lembra da infância, tornando-se num narrador não confiável. O momento que o denúncia é quando comparamos os filmes caseiros que a família adoptiva fez da chegada de Jung, confundido e assustado, com a animação que faz para a completar, onde aparece sempre a sorrir. Mas este elemento não prejudica o filme, antes torna-o de alguma forma ainda mais íntimo, uma confissão em primeira pessoa de todos os pecadilhos que enchem as nossas vidas, e reforça ainda mais os momentos mais difíceis ao mesmo tempo que os tempera com a experiência.

O Melhor: O assumir da intimidade e da subjetividade da narração.
O Pior: Baseado apenas nos volumes editados, parte da história fica por contar.
 
 
 João Miranda
 

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