«Abuelos» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

(contém spoilers)

Documentário de cunho autobiográfico e com um ponto de partida algo pitoresco: a cineasta equatoriana Carla Valencia D’Avila faz uma investigação sobre a trajetória de seus dois avôs e tenta, de alguma forma, cruzar as suas histórias extremamente díspares. 

De um lado está a peculiar história do seu avo materno Remo: como “médico” autodidata, consegue fazer misturas experimentais de medicamentos, curar-se a si próprio de um tumor depois de ser desenganado pela medicina ortodoxa e ainda ajudar centenas de pessoas com outros remédios igualmente inventados por ele. 

Ao mesmo tempo, acreditava que poderia encontrar a “cura” para a morte e fazer chover, mas acabou por morrer intoxicado depois de anos a experimentar químicos no seu próprio corpo. A história, intercalada com a do outro avô, beneficia do óbvio afeto da autora, que conviveu com ele. Apesar da sua peculiaridade, não consegue alcançar uma universalidade que o afaste do caráter de homenagem e cuja fragilidade no tratamento cinematográfico alcançado fica evidente quando comparada à outra narrativa.

Aí encontra-se o que de melhor o cinema documental tem a oferecer. Juan D’Avila foi um dedicado militante comunista chileno, que chegou ao poder na sua localidade com a vitória nas eleições de Salvador Allende, em 1970. Com o golpe dos militares chilenos e norte-americanos, em 1973, que colocou no poder Augusto Pinochet, Juan foi um dos primeiros alvos a abater. Foi enviado para um campo de concentração para presos políticos (Piságua) e sumariamente executado, sob alegação de “traidor da pátria”.

Além da força da natural da trajetória de Juan, a sua narrativa beneficia-se de depoimentos fortes e emocionais, para além de dois achados de grande efeito cinematográfico para concluí-la. Em primeiro lugar, uma fita K7 que ele enviou para o filho que estudava em Moscovo, em 1970, onde contava emocionado as notícias da vitória do partido de Allende e das bem-aventuranças que o povo chileno passaria a usufruir a partir daí. Além do aspeto emocional e familiar evidente, acaba por ser universal ao transmitir todas as esperanças destruídas dos idealismos ao redor do mundo.

Mas não é tudo: depois do fim da ditadura, em 1990, a volta de um exilado despoleta a procura dos corpos dos homens executados em Piságua. Devido às condições adequadas, os corpos enterrados na praia ainda estavam conservados e não é difícil imaginar a comoção das imagens que mostram o avô da realizadora a ser retirado de baixo da areia.

“Abuelos” sofre do problema de que D’Avila não conseguiu dar um aproveitamento igualmente eficaz às duas trajetórias, que de resto, só fazem sentido juntas como raiz ancestral da autora.

O Melhor: a belíssima reconstituição histórica da vida de um dos avôs
O Pior: a fragilidade cinematográfica da outra história
 
 
 Roni Nunes
 

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