A ditadura que dominou o Brasil na década de 70 (extinta oficialmente só no final dos 80) é o pano de fundo para essa história pessoal de fantasmas, culpa, expiação e redenção passado num apartamento em São Paulo.
O plot é uma grande ideia: uma mulher (Denise Fraga) compra um apartamento com a indemnização concedida pelo governo brasileiro aos cônjuges que perderam os seus parceiros durante o período da ditadura. Ocorre que o marido (César Troncoso), há tantos anos desaparecido, surpreendentemente aparece, o que a coloca em grandes dilemas.
O ponto de partida poderia perfeitamente servir a uma obra baseada na ação, mas a opção da realizadora Tata Amaral não é pelo storytelling, mas por uma abordagem teatral e silenciosa, concentrada num único cenário e que, de resto, está em sintonia com uma certa tradição hermética do cinema brasileiro. Mas não podemos nos queixar de falta de modernidade – e a consagração de “Amour”, onde tudo se passa no interior de um apartamento, está aí para confirmar. O que acaba por interessar não é a forma, mas o conteúdo e a dramaticidade.
Neste sentido, trata-se de um filme com grande qualidade a nível da realização (Tata Amaral é uma realizadora experiente e prestigiada), com um bom argumento (a cargo de um dos maiores nomes da cinematografia brasileira, Jean-Claude Bernardet), com bons desempenhos e inventividade cénica e visual suficiente.
Apesar disto, padece daqueles defeitos comuns a este tipo de abordagem, ou seja, têm momentos onde não se consegue evitar a queda da intensidade dramática e do interesse. E, apesar do drama ser solucionado de forma eficaz e coerente, fica a sensação de que com aquele ponto de partida e com a capacidade inquestionável da realizadora, podia se ter feito mais.
O Melhor: a qualidade dos atores e da sua direção
O Pior: nem sempre consegue manter o interesse
| Roni Nunes |

