Devem existir poucos artifícios narrativos tão adequados para expor o grande circo dos média e a iniquidade gananciosa dos seres humanos do que aquelas tragédias em que homens ou mesmo animais (caso das baleias do Alasca, que virou filme com Drew Barrymore) ficam presos e o mundo assiste pelos telejornais à sua tentativa de resgate.
Entre exemplos bastante conseguidos a explorar o tema estão “O Grande Carnaval”, obra-prima que Billy Wilder lançou em 1951, onde Kirk Douglas vivia um jornalista que explorava a situação de um homem soterrado numa caverna. Ao explorar a ambição, as vaidades e os interesses de políticos e familiares do homem para fazer render ao máximo o circo mediático, acaba por causar a sua morte. Mais recentemente, o bósnio Danis Tanovic utilizou esse recurso em “Terra de Ninguém”, onde um homem estava deitado sobre uma granada impossível de ser retirada, para aliar a cupidez dos media ao cinismo dos políticos.
Alex de La Iglesia, por sua vez, aproveita a operação de resgate de um publicitário desempregado que caiu numa obra recém-construída e fica preso por um ferro espetado na cabeça, para abordar algumas das suas questões favoritas – entre as quais a ganância atávica e a falência moral da sociedade atual em nome do dinheiro.
Roberto Gomez (José Mota) vinha de mais uma entrevista de emprego falhada quando sofre o acidente e decide ele próprio converter o episódio num ganho para si após vários anos de tentativas falhadas para arranjar emprego. O circo (literalmente, já que se passa num anfiteatro romano recém descoberto) está montado: o presidente da câmara, com óbvias preocupações políticas, a arqueóloga-chefe, bastante incomodada com os danos que podem ser causados ao património, jornalistas ávidos de insights e, acima de tudo, publicitários e empresários – todos com o sentido moral e ético de um predador das estepes. O contraponto é dado pela mulher de Gomez (Salma Hayek), que simboliza o resgate do afeto e da instituição familiar como a verdadeira razão para a “chispa de la vida” (a chama da vida).
De uma primeira parte quase tragicómica que acompanha a procura de emprego por Gomez e seu acidente bizarro, o filme vai ganhando dramaticidade na medida em que vão se explorando as diversas situações paralelas a volta do homem preso. O resultado é um filme forte, intenso e imperdível.
O Melhor: a enorme força dramática que vai adquirindo ao longo do filme
O Pior: algumas fragilidades na conexão das diversas histórias paralelas
| Roni Nunes |

