Mais uma vez François Ozon mergulha nos seus tão apreciados labirintos metalinguísticos – onde os livros novamente desempenham um papel central. O ponto de partida é a relação estabelecida entre um desanimado professor de literatura Germain (Fabrice Luchini) com um aluno (Ernst Umhauer) que possui o dom da escrita. Ele decide estimular o talento do jovem, mas este utiliza como fonte de inspiração um material bem “vivo” (a família de um colega, que disseca impiedosamente através dos seus escritos), cuja manipulação não está isenta de trágicas consequências.
Filme sobre o poder magnético da ficção e a relação entre o mundo real e o imaginário. No centro, o voyeurismo que acompanha e determina a necessidade da arte – e de onde se extrai o título – ao aludir ao “interior” de uma casa (de uma vida, de uma mente…). Mas ainda há mais: além da própria ficção, também há a própria desconstrução desta – representada na arte moderna “escandalosa” que a mulher de Germain (Kirstin Scott Thomas) exibe no museu onde é curadora.
No desfecho de “Dans La Maison”, quando o escritor decide dar um fim à sua história dentro da história, este já se tornou o poderoso deus dos destinos dos vivos (incluindo a si próprio), todos transformados em personagens. O conjugação e a opção dos finais possíveis é de uma inteligência pouco habitual e o próprio Ozon parece estar tão entusiasmado com as várias soluções que parece não querer terminar o filme – o que acaba por fazer com a mesma qualidade com que fez o resto.
No todo, “Dans La Maison” é do que de melhor se pode se esperar do cinema: bom gosto, conteúdo, poesia, comicidade, sensibilidade, tudo embalado pela música fabulosa de Phillipe Rombi.
O Melhor: o argumento, sofisticado e inteligente
O Pior: nada de especial
| Roni Nunes |

