Muito gostam os autores do universo independente/alternativo de fazer cinema mudo. O italiano Roberto Minervini, radicado no Texas há dez anos, pretendeu nesta sua segunda longa-metragem traçar uma radiografia da desagregação social do sul dos Estados Unidos através de abordagem da vida de uma família – apenas formada por uma mãe o seu filho pré-adolescente.
O garoto, cujo nome nem ficamos a saber (vivido por Daniel Blanchard, num belo trabalho) perambula por uma terra empobrecida, enfrenta a solidão a brincar com animais (incluindo cobras, peixes e rãs), e à procura de latas com outra personagem miserável (um homem chamado Vernon, vivido por Vernon Wilbanks, que vive numa roulotte) para ganhar mais uns trocos. A mãe (Melissa McKinney), imersa em farras etílicas e sexuais, o ignora completamente.
O filme de Minervini tem um largo alcance. É mais uma daquelas obras que servem para lembrar que o cinema não precisa de recursos milionários para que se explorem todas as suas potencialidades. Com câmara na mão, simplicidade absoluta de cenários e locações naturais, consegue criar um pouco de tudo – emoção, crítica social, análise familiar. Sem diálogos, consegue ser cativante e criar um quadro de grande realismo.
O resultado é um filme belo e intenso, mas que deixa de alcançar uma dimensão maior devido à insistência em não usar diálogos mesmo quando estes eram “obrigatórios” – especialmente no fim, mas também no meio – quando algumas situações que já compreendemos bastante bem começam a tornar o filme um pouco redundante. “Low Tide” foi o último a aterrar na Competição do LEFF, diretamente do Festival de Veneza, onde recebeu um prémio menor. Sem dúvida, um cineasta a seguir.
O Melhor: fazer muito com pouco
O Pior: o naturalismo tão bem alcançado torna-se artificial no fim, dado a insistência em não usar diálogos
| Roni Nunes |

