«Sib» (The Apple) por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Há 14 anos, Samira Makhmalbaf, então com 17, ficou de tal modo chocada com a notícia sobre duas adolescentes que nunca tinham saído de sua casa que resolveu fazer um filme sobre isso. Nascida numa família de pessoas ligadas ao cinema, encontrou aí todo o apoio que necessitava e resolveu contactar a família que tinha visto nas notícias e, poucos dias depois de ter visto a reportagem nas notícias, filmou em apenas 11 dias Sib com a sua participação. 

Criando uma ficção à volta da notícia original, a realizadora consegue ainda assim documentar o desenvolvimento drástico das raparigas conforme vão interagindo com a rua e as pessoas nela, bem como o contexto cultural que pode ter originado a situação em que se encontravam, isto tudo sem julgar os pais. Na conversa que houve depois do filme, Samira revelou que esse foi um dos pontos importantes para ela: mais do que julgar e demonizar os pais, tentar compreendê-los e às suas ações. 

É um filme que mostra uma cultura diferente da Ocidental, onde as coisas podem ser mal interpretadas e um elitismo cultural pode deturpar o que o filme mostra e a intenção da realizadora. Ainda assim, mesmo ignorando o contexto sócio-cultural, o filme mantém-se como um documentário sobre a abertura e o desenvolvimento de duas pessoas que ficaram presas demasiado tempo e agora descobrem o mundo com um fascínio e uma inocência desarmantes. 

O uso das pessoas envolvidas, família e vizinhos, em vez de atores profissionais, foi um risco, mas que compensa no final e acaba por dar uma dimensão maior ao filme.
 
 
 João Miranda
 

Últimas